A MENSAGEM ORIGINAL DO ISLÃO

 

Por Farid Gabteni

 

A validade científica dos meus trabalhos é reconhecida e incontestada pelos especialistas. Entre eles, os – muçulmanos tradicionalistas – ainda detém algumas reservas quanto às conclusões das minhas pesquisas, ou seja, a profanação do tradicionalismo ideológico e a mera recuperação do Islão original (610-632). A minha obra destina-se, sem dúvida, aos muçulmanos ou aos não-muçulmanos; facilitando a distinção entre o verdadeiro e o falso, ou seja, o Islão original do desviante e instrumentalizado.
Aprendi o Alcorão, o ḥadîth, a sunnah/sîrah, a teologia e a jurisprudência através do ensino e da visão de grandes doutores (Σulamâ), referências em matéria de tradicionalismo. Consequentemente, tornei-me eu próprio tradicionalista (moderado؟) durante algum tempo. Contudo, quando me especializei e estudei, entre outras, a historiografia, reabri então o Alcorão com uma abordagem científica pluridisciplinar; qual não foi a minha estupefacção ao descobrir que a Mensagem original do Islão enunciada no Corpus se opõe seriamente a muitas das asserções incluídas nas escritas múltiplas da tradição, sendo que estas constituem a base da ideologia tradicionalista.
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Etimologicamente, em língua árabe, o Islão (الإسلام) significa a Pacificação: a ação de pacificar, de estabelecer, de restabelecer, e de manter a paz; a submissão pela paz a Deus. O Islão é a materialização da Paz (al-silm, al-salâm, السّلم السّلام): aquele que se submete a Deus pacifica-se (yuslim, يسلم), põe fim às tormentas do seu espírito, os movimentos de revolta nele e em seu redor; ele é pacificado, muçulmano (muslim, مسلم) e pacifista (mussâlim, مسالم) : ele aspira à quietude, à segurança e à tranquilidade, ele não é a favor, ou pelo conflito e a revolta; consequentemente, ele adquire um coração pacífico (salîm, سليم), são e santo, em paz com Deus e a Sua Criação.
O contexto histórico do advento do Islão partilha certos pontos comuns com a nossa época. Tal como hoje, o mundo conhecido era dominado, no início do sétimo século, por potências antagónicas, os impérios persa e bizantino. Existiam outras civilizações, tais como os Grandes povos da Índia e da China, sem esquecer as civilizações pré-colombianas, outros países ricos e outros países pobres. Havia também povos rudes e tribos que, desde há séculos, perpetuavam os mesmos modos de vida, como subsistem atualmente alguns grupos vivendo à margem da civilização…
As preocupações de ordem filosófica e as crenças religiosas das tribos da Arábia eram muito arcaicas comparadas às religiões existentes, quer sejam monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Zoroastrismo, então espalhadas no mundo conhecido, mesmo nas regiões mais recuadas do deserto da Arábia, ou consideradas como politeístas, Taoísmo, Xintoísmo, Hinduísmo, Budismo…
O politeísmo e a idiolatria que reinavam nas tribos da Arábia eram como as representações dos Deuses sendo elas próprias consideradas como realmente divinas e personificadas como tais. E mesmo se os seus crentes cressem num Deus dos deuses, este não estava seguro da sua superioridade, era posto em competição com as divindades menores que, frequentemente, eram mais venerados que ele. O grau de evolução dos Árabes, então, comparado ao das grandes civilizações do seu tempo, era muito rude.
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O contexto histórico, religioso e sociocultural no qual viveu Mohammad[1], selo dos Profetas, é comparável ao de Abraão, pai dos muçulmanos. Este viveu numa época em que os sacrifícios humanos, particularmente de crianças, não eram raros. Na Arábia do início do sétimo século, a pobreza levava alguns a matar os seus filhos. Outros enterravam as suas filhas vivas, por vergonha ou por medo de desonra, sobretudo se elas eram as primeiras a nascer. Acontecia também que se imolasse um primeiro ou um último bebé homem a nascer, na sequência de uma promessa feita a um ídolo. Assim, o Islão surgiu onde dominava o obscurantismo do ignorantismo, no deserto.
Na origem, um homem, Mohammad, ao qual repudiavam os ídolos. Ele era chamado de al-amîne: “o segurador, o digno de confiança”. É a ele que Deus concede a Revelação pelo intermédio de um anjo, Gabriel (Jibrîl). Mohammad encontrava-se numa gruta chamada Ḥirâ’, na qual, há cinco anos, ele se refugiava durante o mês de ramadão, para refletir aí sobre a criação dos céus e da terra. Quanto ao resto do ano, ele geria os negócios da sua mulher e acompanhava as caravanas ao longo do deserto.
Deus escolhe sempre homens humildes, mas não banais. Ele concede-lhes da Sua luz, quer dizer da Sua ciência, e Ele faz deles guias, modelos, exemplos, para que eles saibam refletir e raciocinar. Escolhendo Mohammad, Deus distinguiu um homem que vivia de facto normal e simplesmente, e Ele revelou-lhe, como a todos os Profetas, que Ele É o seu Deus, O Deus de todos os homens, de toda a criação. Ele É O sem-princípio-nem-fim, Ele É, Ele Era, Ele Será sempre; Ele É um Tesouro escondido, Ele Cria e faz-Se Conhecer. No Alcorão, é dito: “E, assim, Revelamo-te um espírito de Nossa Ordem. Tu não sabias o que o livro era, nem qual a fé, mas Nós o Fizemos, como luz, pela qual Guiamos a quem Queremos de Nossos servos (…) 52[2] ; “E tu nunca recitaste nenhum livro antes dele, nem tu podias escrever um com a tua mão direita (…) 48[3].
Deus deu-lhe a luz, a ciência contida no Alcorão, o Livro do Discernimento (al-furqân): o Livro de Deus, para que ele o transmita aos homens. Rico graças à sua mulher, estimado dos seus pais e amigos, considerado pelos seus concidadãos, Mohammad, agora o depositário da verdade, ia ser posto à prova pelo mal e pelo bem, como todos os Enviados e Profetas de Deus antes dele, como todos os justos, como todos os homens. “Em verdade, a derradeira [outro mundo] te é melhor que a primera (neste mundo)  4 E em verdade, teu Senhor Dar-te-á e tu estarás bem satisfeito 5 Não te Encontrou órfão e te Protegeu? 6 E não te Encontrou descaminhado e te Guiou 7 E não te Encontrou infortunado e te Enriqueceu 8 Então, quanto ao órfão, não o oprimas 9 E, quanto ao mendigo, não ralhes 10 E, quanto à Graça de teu Senhor, proclama-a 11[4].
Mohammad recebe um novo Livro Revelado, o Alcorão. Este credibiliza, restaura e complementa as revelações anteriores, está na continuidade da mensagem Divina transmitida por cada, no seu tempo e a seu povo. Nisto, Mohammad é o selo dos Profetas, com ele a Crença, a Religião é completa, o monoteísmo fixa-se definitivamente. “Mohammad não é pai de nenhum dos vossos homens, mas o Mensageiro de Deus, e o selo dos profetas; e Deus,  de todas as coisas, é Onisciente 40[5] ; “(…) Este dia Aperfeiçoei Eu para vós a vossa religião e Completei Minha Graça para convosco, e para vós agradei-Me do Islão como religião (…)3[6] ; “Por certo, a religião com Deus é o Islão (…) 19[7].
Assim, o politeísmo que, apesar da emergência das religiões monoteístas, permanecia largamente preponderante desde os tempos mais remotos, começou a declinar, ainda mais que atualmente, com o desenvolvimento sem precedente das ciências, o tema central, mesmo e sobretudo nos sábios, é Deus O Único: “EM NOME DE DEUS, O CLEMENTE, O MISERICORDIADOR. Dize: ‘Ele é Deus, Único 1 Deus, O Absoluto 2 Não gerou e não foi gerado 3 E não há ninguém igual a Ele’ 4[8].
“(…) Este dia Aperfeiçoei Eu para vós a vossa religião e Completei Minha Graça para convosco, e para vós agradei-Me do Islão como religião (…) 3[9]. Este versículo é o último a ter sido revelado, o ponto final da Revelação. O Islão, última religião revelada, era inteiro e aprovado como tal a partir deste dia. Qualquer acréscimo posterior a esta revelação decorre das múltiplas circunstâncias da história dos muçulmanos, e não pode ser considerado como fazendo parte do cânone do Islão. Dizer o contrário, é enunciar que a Religião não tem fé complementada na revelação deste versículo, contrariamente ao que ele afirma.
Assim, desde Adão, primeiro humano, até Mohammad, selo dos Profetas, passando por Abraão, Moisés e Jesus, a Mensagem divina é sempre a mesma, veiculada sob diferentes formas e complementada com o Islão.
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Com o Alcorão, Mohammad recebia a última religião mas sempre a mesma mensagem: Deus dotou-te de razão, estuda o passado e o presente, aprende pela ciência e pelo conhecimento, observa o céu, os astros, a terra, o mar, a vida, a morte, todas as coisas pequenas e grandes. Então, tu conhecerás, tu conhecê-Lo-ás, tu poderás então testemunhar que não existe outro Deus além de Deus, e tu saberás como e por quê viver. Tu não adorarás, tu não servirás outros “deuses” sem ser Deus O Único, O Verdadeiro, assim tu trabalharás com equidade e bondade, tu não farás o mal, tu não corromperás a Criação. Tu agirás assim, porque tu saberás que Ele é Deus e que Ele é Aquele que Cria e que Julga.
“Deus É A Luz dos céus e da terra. O exemplo de Sua Luz é como um nicho, hem que há uma lâmpada, a lâmpada está em um cristal, o cristal é como se fosse uma brilhante estrela. A sua luz vem de uma árvore abençoada, olívea, nem do oriente nem do ocidente, seu óleo quase se ilumina mesmo que o fogo o não tocasse: luz sobre luz. Deus Guia a Sua Luz a quem Ele Quer, e Deus Estabelece os exemplos para os homens, pois Deus,  de todas as coisas, É Onisciente 35[10] ; “Por certo Nós fizemos Descer, sobre ti, o livro, com a verdade, para orientaçâo dos homens. Entâo,  quem se guia, se guia em benefício de si mismo; e quem se descaminha se descaminha em prejuício de si mismo. E tu, sobre eles, não és patrono 41[11].
“Então,  ergue tua face, para a religião, convertido, assim é a natureza feita por Deus, segundo a qual Ele há Modelado os homens. Não há alteração na Criação de Deus; essa é a religião reta, mas a maioria dos homens não sabe 30[12]. Religião da boa e bela obra, do justo equilíbrio, da moderação, o Islão é a religião da ciência, do conhecimento de Deus pela sua criação. Um dos elementos, e não dos menos relevantes, que distingue o Alcorão das revelações anteriores é a sua insistência sobre as noções de ciência e de conhecimento. Adicionalmente, a primeira palavra da Revelação a Mohammad fé: “Iqra’ ! (Lê!)” ; “Lê em nome de teu Senhor, que Criou 1 Criou o ser humano de uma aderência 2 Lê, e Teu Senhor É O Mais-Generoso 3 Que Ensinou com o cálamo 4 Ensinou ao ser humano o que ele não sabia 5[13].
Quanto ao primeiro homem designado como humani, é Adão e a primeira vez e que é citado no Alcorão, Deus diz: “E Ele Ensinou a Adão todos os nomes (…) 31[14]. É assim claro que, no Alcorão, o princípio do ser humano está ligado ao conhecimento. A primeira coisa de Deus, que recebeu Adão, é o saber de todos os nomes, e a primeira ordem de Deus a Mohammad fé: “Lê!”. A Mensagem de Deus ao homem, desde o princípio até Mohammad até ao fim dos tempos, é: Lê, aprende, conhece a criação de Deus, para conhecer Deus e agir em conformidade; quer dizer de forma correta e com bondade, porque tu serás julgado. E o Dia da Ressurreição: “(…) Aqueles a quem são Dado Conhecimento dirão: ‘Por certo, neste dia, desgraça e aflição sem dúvida cairão sobre os incréus’ 27[15] ; “E aqueles a quem são Dados Conhecimento e Fé dirão: ‘Com efeito, lá permanecestes no Livro de Deus até ao dia da ressurreição. E este é o dia da ressurreição, mas não sabíeis’ 56[16]. Significa a que ponto o saber constitui o primeiro mandamento de Deus no Islão.
Chama a sua atenção e sua reflexão para o que é dito, ao que é ouvido e ao que é visto, tomar consciência das coisas, de si mesmo e dos outros. Decifrar corretamente, além do que é dito, do que é ouvido e do que é visto, tomar consciência de todas as coisas, de si mesmo e dos outros. Lá, os dois encontram-se O Verdadeiro, O Real Inefável.
No Alcorão, muito numerosos são os versículos que valorizam a reflexão, o raciocínio e referem os sábios: “(…) então narra-lhes a narrativa;  na esperança de refletirem ! 176[17] ; “(…) e estes exemplos, Nós Apresentamos para os homens, a fim de refletirem ! 21[18] ; “(…) assim Aclaramos os sinais a um povo que reflete 24[19] ; “(…) Assim Deus Torna evidentes, para vós, os sinais, para refletirdes ! 219[20] ; “Os que se lembram de Deus, de pé e assentados e deitados de lado, e refletem na criação dos céus e da terra: ‘Senhor nosso!  Tu não criaste isto em vão; Glorificado Sejas! Então, Guarda-nos do castigo do fogo’ 191[21].
“Ele É Quem Fez do sol luminosidad, e da lua, luz, e Determinou-lhe fases, para que saibais o número dos anos e o cômputo; Deus não Criou isto senão em verdade. Ele Aclara os sinais para um povo que sabe 5[22] ; “E dos Seus Sinais é a criação dos céus e da terra, e a diversidade das vossas línguas e cores; nisso sem dúvida estão sinais para os que sabem 22[23] ; “E esses exemplos, Propomolos para os homens, e não os entendem senão os sabedores  43[24] ; “(…) apenas, os sábios receiam a Deus, dentre Seus servos. Por certo, Deus É Todo-Poderoso, Perdoador 28[25] ; “Mas ele é consituído dos sinais evidentes no coração daqueles a quem é Dado o conhecimento; e não negam Nossos Sinais senão os injustos 49[26] ; “(…) Deus Elevará aqueles dentro vós que creem e aqueles a quem o conhecimento é dado, em escalões; e Deus, do que vós fazeis, Está bem ao corrente 11[27].
 
Negar ao Alcorão o seu aspecto científico é ignorar ou esquecer que os estudiosos e a civilização islâmica são o resultado de uma cultura corânica que estimula à reflexão e à pesquisa científica. A influência e a contribuição do Alcorão para os estudiosos muçulmanos são indiscutíveis e historicamente comprovadas.
Os estudiosos muçulmanos eram todos os crentes, formados pelo estudo do Alcorão. Quase todos se tornaram teólogos, antes de se especializarem em várias disciplinas científicas. Eles enriqueceram a Ciência com os seus conhecimentos e com tudo aquilo que adquiriram ao longo da história da humanidade. O trabalho deles é considerado hoje como precursor das ciências modernas. Inúmeras vezes, estes estudiosos testemunharam que o estudo aprofundado do Alcorão esteve na origem da sua vocação científica.
“E aqueles a quem são dados conhecimentos e fé dirão: (…) 56[28]. Neste versículo, a palavra “saber” precede a palavra “fé”, ambos devem ser considerados simultaneamente, um com o outro. Com efeito o resultado do saber conjugado com a fé é a paz, a serenidade, um coração pacífico (سليم), são e santo. Sem saber nem discernimento, qualquer crença está dependente das circunstâncias e da paixão, que conduzem ao melhor e/ou pior; a História prova-o.
Todos os estudiosos muçulmanos, sem exceção, foram coranistas, como foi o próprio Profeta; e todos os extremistas, desviacionistas, eram tradicionalistas, os de hoje não o são menos; está tudo dito. Os muçulmanos ligados ao progresso e à Ciência transmitiram à humanidade os fundamentos de todo o conhecimento moderno. O Islão é a única religião no mundo que está na origem de uma civilização dedicada às ciências. Quanto aos homens retrógrados, fanáticos e criminosos, sempre existiram em todos os tempos e em todas as sociedades, males dos quais a humanidade deverá ser preservada.
Além disso, para ser Muçulmano, é necessário testemunhar que só existe Deus. E para ser uma verdadeira testemunha, para poder atestar a verdade, a realidade, é necessário um saber, um conhecimento dos factos e das coisas. Com este saber adquirido, acedemos então à fé pela razão e pelo coração, tornamo-nos humildes na paz e amor de Deus, sabemos donde vimos e onde vamos, agimos com benevolência e bondade, distinguimos o bem do mal, o verdadeiro do falso. O Muçulmano que sabe é um ser de Paz, tolerante, amável, benevolente e benéfico; ele acredita no Deus Único sem parceiros, no Deus de Israel, em Cristo, em Mohammad, no Deus de todos os homens sem distinção, o Deus do céu, da terra e do que existe entre ambos, o Deus daqueles que vivem nos céus e na terra. E certamente, se a Reivindicação, a Religião com Deus é o Islão, Ele Eleva o que Ele Quer e Perdoa a quem Ele Quer. Portanto sem excluídos, e todas as suas criaturas entram na sua Misericórdia. E isso não é um pormenor.
“E para que aqueles a quem tem sido Dado conhecimento saibam que isso é a Verdade de Teu Senhor, então, nele creiam, e seus coraçãoes se humildem a ele. E, de seguro, Deus Guia os que creem a uma senda reta 54[29].
O Alcorão não é um livro esotérico, reservado apenas para os iniciados; é expressamente exotérico no que pode e deve ser divulgado e ensinado publicamente. No entanto, devido à sua natureza divina, o texto comporta e transmite vários níveis de leitura em justaposição e complementares; nenhuma exegese, literal ou anagógica pode ser retirada. No entanto, o sentido do significado pode ser inferido com uma probabilidade ideal de análise do discurso, específico ou genérico. O Alcorão está, portanto, acessível a todos os seres humanos dotados de razão e senso comum; é hermético para os surdos que não querem ouvir e para os cegos que não querem ver.
Eu demonstro, ao longo da minha obra, através de dezenas de exemplos, que o Alcorão insiste e incita à reflexão, ao raciocínio e à procura do saber; por conseguinte, ao conhecimento de Deus. O Alcorão não é lei em si, mas Revelação, é Religião que estabelecer uma relação do homem à Ordem do Divino, da Realidade Superior, que se concretiza pelo Saber, pela Fé, a Benevolência, a Beneficiência, a Ordem para fazer o bem, a Abstenção do mal, a Pacificação e a Paz; é a Mensagem original do Islão.
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Contrariamente à Bíblia e à maioria dos livros sagrados, que narram cronologicamente a história da criação, do mundo, do homem, dos Profetas e dos Mensageiros, o Alcorão ele, excecionalmente para José ou excecionalmente, não relata os acontecimentos de uma só vez, num determinado capítulo, mas fragmentados e apresentados de maneira não linear, no conjunto do corpus. Não se trata de relatar, forçosamente, fatos históricos em si, mas de suscitar a investigação, a análise e a reflexão científica, que eleva a alma ao Islão. Ao contrário do que pensam e pregam alguns, o Alcorão não se apresenta como um livro de história, nem como um código civil e penal, na aceção literal das palavras. A sua compreensão profunda passa por uma análise pluridisciplinar rigorosa com binóculos, à lupa e ao microscópio. Ele é a Revelação de Deus, a Sua Palavra endereçada à razão e ao raciocínio do homem.
“E seguramente já fizemos Variar para as pessoas, neste Alcorão, de cada exemplo; então a maioria das pessoas apenas opinaram difamações 89[30] ; “Se houvéssemos feito Descer este Alcorão sobre uma montanha, vê-la-ias humilde, rachada por receio de Deus, e estes exemplos, Propomo-los, para os homens, a fin de refletirem 21[31]
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De todos os Atributos com que Deus se qualifica a Si-Próprio no Alcorão, o do Senhor dos Mundos, tão frequentemente repetido, quarenta e duas vezes sob esta forma, destaca a universalidade do Islão, a religião à qual são convidados todos os homens. Deus não é o Senhor do único céu e da única terra, Ele é o Senhor dos Mundos: dos céus, da terra e do que há entre eles. Este enunciado, se escapasse parcialmente à compreensão dos primeiros muçulmanos, adquire toda a sua significação à luz dos conhecimentos modernos. “Faraó disse: ‘E o que é O Senhor dos mundos?’ 23 Ele [Moïsés] disse: ‘O Senhor dos céus, e da terra, e do que está entre os dois; se estais convictos!’ 24[32] ; “Por certo, Vosso Deus É Uno 4 O Senhor dos céus e da terra, e do que está entre ambos;  e o Senhor dos Levantes 5[33].
No meio de biliões de galáxias e de sistemas solares, se os cientistas se colocam ainda a questão de saber se há outros Seres Vivos no Universo, o Alcorão, ele, afirma-o: “E, diante de Deus, prosterna-se o que há nos céus e o que  há na terra de ser animal, e os anjos também, e eles não se ensoberbecem 49 Eles temem o seu Senhor acima de eles, e fazem o que lhes é ordenado 50[34].
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No deserto, há mais de mil e quatrocentos anos, Deus Revela a Mohammad que este Livro, o Alcorão, esta advertência que Ele dirige aos homens, não sofrerá alteração, porque é Ele Deus que o Preserva. E com efeito, o Alcorão é hoje considerado pelos especialistas (cientistas) como o livro sagrado mais conforme ao que era na origem. “Por certo Nós, Nós fizemos Descer o Alcorão e, por certo, dele  Somos Custódios 9[35]. Posto isto, resta ainda aceder ao cerne da sua mensagem: “Por certo é seguramente um Alcorão abundante 77 Numa escrita protegida 78 Não o tocam senão os purificadores 79 Descida do Senhor dos mundos 80[36]; “Mas este é um Alcorão glorioso 21 Em tábua Custodiada 22[37].
No tempo do Profeta, cada civilização tinha os seus próprios valores, e as noções do bem e do mal divergiam de um povo para o outro. A humanidade atingiu, a partir da segunda metade do século vinte, um elevado nível de civilização e de conhecimento; as ciências e as tecnologias sofriam um desenvolvimento sem precedente. Mas no que se refere à falibilidade do homem: se as circunstâncias mudaram, a mentalidade permaneceu geralmente a mesma. A corrupção e o mal predominam ainda, têm nomes: injustiça, manipulação das massas, obscurantismo, miséria, guerras, massacre, crises e tráfegos de todo o género, degradação do ambiente, extinção das espécies, poluição, alteração climática… “A corrupção apareceu na terra e no mar pelo que as mãos dos homens têm obrado, a fim de Ele fazê-los experimentar algo do que fizeram, para retornarem 41[38].
Atualmente o Islão e os muçulmanos tornaram-se na assombração do mundo, com muita frequência falamos apenas em termos de guerra, de terrorismo, de imigrantes ou de migrantes. Em África, na Ásia, na América do Sul e noutros locais pelo mundo, florestas são destruídas, lagos e rios são secos, terras e localidades são tragadas, populações inteiras são deslocadas, milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza, centenas de milhares são vítimas da fome, assassinatos, raptos, do tráfico de órgãos, milhões de mulheres são agredidas e violentadas, centenas de milhares de crianças são escravas… Isto, não é falado senão quando ultrapassa um certo limite de monstruosidade; ou então na altura da copa de futebol.
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Outro paradoxo, enquanto o Islão dá cartas inclusive no campo científico, o mundo muçulmano atual, ele, longe de ser o modelo a seguir, está à deriva. Estas duas constatações são suficientes para provar que o Islão se distingue pela sua originalidade divina, muçulmanos falíveis por natureza. E é dito no Alcorão: “Deus Deseja tornar evidente, para vos, e Guiar-vos, aos procedimientos dos que foram antes de vós, e Voltar-Se para vós. E Deus É Todo-Conhecedor, Sábio 26 E Deus deseja Voltar-Se para vós; e os que seguem o seus desejos querem que vos desvieis, com formidável desviar 27 Deus Deseja Aliviar-vos, e foi Criado frágil o ser humano 28[39].
O Islão manifesta-se mesmo numericamente, com mais de um bilião e meio de fiéis sobre o planeta e o aumento contínuo dos que o escolhem, o que fará com que seja a curto prazo a primeira religião na Terra. O progresso do Islão, contrastando com a degenerescência de alguns muçulmanos, explica-se pela universalidade da sua mensagem original, que não conseguem conter as vicissitudes às quais são confrontados os muçulmanos há séculos. “Ele É Quem há Enviado o Seu Mensageiro com a guia e a religião da verdade, para fazê-la prevalecer sobre todas as religiões, ainda que o odeiem os idólatras 9[40].
Simultaneamente, a aparição do charlatão[41] e do charlatanismo é, a partir de agora, efetiva no mundo; eles têm como característica apresentar-se por falsas aparências de virtude e piedade. Muitos são os que creem, até que a luz do conhecimento, irrevogavelmente, manifesta-se e permite confundir estas forças obscuras e malfeitoras. Sob a capa de um islão desnaturado pelos ignorantistas, fanáticos, corruptores da fé, exímios na ignomínia, cometem os piores crimes contra Deus e a humanidade. Desvirtuando O Islão e todos os valores morais, universais, eles cultivam a discórdia, o ódio do outro, a violência e o sectarismo. Se é inegável que estes criminosos demoníacos visam e ameaçam a civilização na sua totalidade, os muçulmanos são as primeiras vítimas das suas teorias e das suas práticas horripilantes.
Os criminosos não têm religião, os seus êxtases são a morte, a destruição e a corrupção na terra. O Islão condena os charlatães diabólicos e assassinos, infelicidade para eles neste mundo e no próximo. O Islão é inocente dos crimes, das atrocidades e dos massacres falsamente perpetuados em seu nome por hereges, desviacionistas e criminosos. Estes são os agentes do mal, perversos e corruptos na Terra. Deus não gosta nem da agressão nem dos agressores, e menos ainda dos corruptos na Terra, os sedentos de sangue e os assassinos.
O cerne do problema associado ao terrorismo perpetrado em nome do Islão é a ideologia obscurantista, fanática e violenta que prega o ódio e a morte. É esse tipo de ideologia herética, contrária ao Islão original, que influencia os ignorantes e os espíritos mais sensíveis, incitando-os a cometerem crimes. Devemos educar e sensibilizar os muçulmanos a seguirem o Islão original, considerado um vetor da ciência, do progresso, da tolerância, da paz e da civilização.
A Fé está intimamente ligada à bondade e à benevolência. A desordem está interiormente ligada à brutalidade e à violência. Durante a sua vida, o Profeta jamais iniciou uma guerra ofensiva; todas as que teve de conduzir eram defensivas ou (mais raramente) preventivas. Aqueles, depois dele, que agiram de forma diferente carregam sozinhos a responsabilidade perante Deus e perante a História. O Islão original apela ao humanismo e universalismo, ao contrário do tradicionalismo ideológico que que conduz ao comunitarismo e ao recuo identitário. O primeiro é o Ensinamento de Deus, Mestre dos mundos; o segundo é a exaltação dos sectários, doutrinários e exagerados.
Alguns, perdidos, passam o seu tempo a magoar-se, frequentemente da forma mais sincera possível. Uns e outros clamando “Deus É O Mais Elevado!” e, tanto num campo como no outro, eles pretendem defender a justa causa de Deus. Eles estão num estado de restrição mental por onde se perpetua o obscurantismo, a superstição e a violência. Muitos tornaram-se reféns ou marionetas de um dogmatismo e de um passado terminados. Que dizer senão: “Lâ ḥawla wa lâ quwwata illâ billâh, não existe ambiente e força senão por Deus?”. “Dize: ‘Ô seguidores do Livro! Não vos excedais, inveridicamente, en vossa religião, e não sigais as inclinações de um povo que antes se descaminhou e descaminhou a muitos, e se tem descaminhado do caminho direito’ 77[42].
Por exemplo, ΣÂshûrâ, uma festa para uns, durante a qual se alegram; um luto para os outros, durante o qual se flagelam. Não deveria ser nem uma celebração nem uma penitência por flagelação. Os historiadores muçulmanos, todos sem exceção, relatam que o último e amado neto do Profeta, Al-Ḥussayn, foi morto e decapitado por alegados muçulmanos no dia de Σâshûrâ’ (10-01-61 H/10-10-680 G). Quem pode tirar proveito da comunidade de Mohammad e alegrar-se neste dia? Como se penitenciar por flagelação quando o Islão rejeita totalmente este processo? Este dia deveria ser um momento de recolhimento e reflexão sobre a nossa história de ontem e de hoje para melhorar amanhã.
Por outro lado, Moisés, Jesus e Mohammad não celebravam o aniversário do seu nascimento; os judeus, os primeiros cristãos e os primeiros muçulmanos também não festejavam o dia de aniversário do nascimento dos seus Profetas. Mais ainda, na história das religiões, não encontramos qualquer marca de um Profeta que tenha iniciado os seus discípulos em tais celebrações.
O Profeta nomeava e enviava oficiais e instrutores para ensinar o Monoteísmo pelo Islão (a Pacificação). Não instituiu nem clero nem governo, e não designou ninguém, precisa e indiscutivelmente, para exercer um poder político e/ou religioso após ele. Portanto, o Islão original não legitimou a instauração de um estabelecimento, sob qualquer forma ou natureza; o tradicionalismo ideológico, porém, continua a fazê-lo. O Islão transmite a filosofia da vida; o tradicionalismo, uma ideologia sistémica.
O Islão não pode ser representado, nem pelo clero, nem por dignitários religiosos e menos ainda por uma instituição do Estado. Em relação aos  estudiosos da religião islâmica, só podem beneficiar de uma única prerrogativa, a de emitir opiniões.
Após a morte do Profeta Mohammad (632), existiram vários eventos e circunstâncias na história, que por serem inúmeras, levariam muito tempo a enuméra-las aqui, por isso falámos apenas daqueles que abrangessem todas as áreas, sendo que alguns interpretaram o Alcorão e a acção do Profeta, de acordo com o que eles pensavam ser justo segundo os seus pontos de vista, e outros, de acordo com seus interesses. Foi isso que deu origem ao sharîΣah, legislação, jurisprudência e teologia entre os muçulmanos. Hoje mais do que nunca, temos o dever de estudar e analisar em pormenor, objetivamente, historicamente e cientificamente, o Islão do profeta e o que aconteceu com ele após a sua morte, como nasceu a teologia e a jurisprudência entre os muçulmanos, de maneira a voltar à mensagem original e verdadeira do Islão.
Deus Ensinou aos humanos os nomes, todos (Alcorão / cap. 2, v. 31); para analisar, refletir, discernir e legislar em conformidade. A única sharîΣah (Direito, Legislação) de Deus, imutável e inviolável, parecem ser as leis da física, inalteradas e inalteráveis desde a criação do universo. Qualquer outra lei é circunstancial do tempo, lugar, causa, finalidade. Os ignorantes e os fanáticos são como o ilustrado no versículo 179 do capítulo 7 do Alcorão: “(…) com corações com que não compreendem, e têm olhos, com que não vêem, e têm ouvidos, com que não ouvem. Esses são como os rebanhos, aliás, são mais decaminhados; esses são os desatentos”.
Para o Muçulmano que sabe, apenas o Alcorão é a Revelação de Deus, por isso Sagrado; o resto é a composição dos homens, por isso falível. O Alcorão refere claramente a liberdade de consciência e de expressão, diria mesmo qualquer liberdade. Então, quando Deus Anunciou aos anjos que Ia instituir um legatário (ao que precedeu) na Terra, estes retorquiram: “Estabelecerás nela quem ali fará corrupção, derramando sangue? (…)” Deus ! Longe de recriminá-los por esta reflexão, Responde-lhes e Argumenta a Sua Decisão: “(…) Eu Sei o que vós ignorais”[43]. Além disso, no Alcorão, é mesmo permitido ao diabo desobedecer a Deus, justificar sua desobediência e de fazer o mal (por sua conta e risco). Para refletir, tudo é dito com liberdade, no que acabo de dizer. Todo o Alcorão ilustra, através de muitos exemplos, a liberdade de consciência e de expressão.
O ideal de liberdade não é o do homo occidentalis, mas o da natureza humana; a palavra liberdade foi invocada, ao longo da história da humanidade, por todos os oprimidos, de todas as nações, por toda a Terra. A universalidade desta nobre palavra foi consagrada pela luta dos povos colonizados, despojados e subjugados; a liberdade é inerente à evolução e à realização do ser humano.
Os últimos países a abolirem a escravatura eram ditos “muçulmanos”, em contradição total com os preceitos do Alcorão e com a conduta do Profeta incitando à libertação dos escravos. De igual modo, ao transporem para fora do contexto os versículos corânicos, circunstanciais de época, de lugar, de causa e de fim, os tradicionalistas pregam a manutenção da mulher sob a tutela do homem; fiando-se sem discernimento no seu discurso, demasiados muçulmanos ainda estão, infelizmente, atrasados no que diz respeito à emancipação das mulheres. Isto, mais uma vez, está em contradição total com o Coração do Alcorão e com a Mensagem original do Islão.
Todos os seres humanos, homens e mulheres, nascem e permanecem indispensavelmente livres e iguais em dignidade e em direitos perante Deus, até ao juízo final; a leitura analítica do conjunto do Alcorão não deixa qualquer dúvida a este respeito. Os tradicionalistas muçulmanos desviacionistas, que definem as palavras distorcendo-lhes o sentido e fora do contexto corânico, não fazem melhor do que os seus homologos judeus e cristãos, que pregam que a mulher foi a primeira a cometer o pecado original, e estes ainda relatam isso literalmente das suas Biblias[44].
Para provarem que a mulher não é igual ao homem e que deve estar sob a tutela deste, os tradicionalistas desviacionistas avançam, entre outros, como argumento que Deus não consagrou mulheres como Profetas. Vocês podem imaginar as mulheres Profetas pregando no meio de multidões rudes, sem fé nem lei, belicosas e assassinas, sacrificadoras de crianças e misóginas até ao extremo: para as quais a mulher não era e não tinha mais valor do que um utensílio! Sabendo o que muitas delas sofrem ainda nos nossos dias, com que palavras poderíamos descrever as condições horrendas em que viviam as mulheres de há décadas, séculos ou milénios atrás ?
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Os hereges esquecem-se do Islão, a religião da unicidade, do conhecimento, da liberdade de consciência, do livre arbítrio, da tolerância, da pacificação e da Paz para desenvolverem ideologias obscurantistas, retrógradas, que são puras propagandas do ódio e da violência. Não obstante, mesmo para falar com um tirano como o faraó, Deus Ordenou a Moisés e ao seu irmão: “Então, dizei-lhe dito afável, na esperança de ele meditar! O recear!”[45]. Este versículo, como muitos outros semelhantes, é, para o Muçulmano, um exemplo de comportamento a seguir. Também, se hoje a entrada das mesquitas é geralmente proibida aos não-muçulmanos, o Profeta Mohammad recebia os judeus e os cristãos, entre outros, na mesquita.
O Alcorão cita o racismo como sendo o primeiro pecado capital cometido contra a lei divina e foi o diabo que o inaugurou; respondendo a Deus a propósito do humano : “ele disse: ‘eu sou melhor que ele, Tu Criaste-me do fogo e Tu Criaste-o da argila'”[46]. Por conseguinte, todo aquele que se crê superior a um outro perpetua este pecado originalmente diabolico; e Deus Sabe que os racistas são numerosos, em toda a parte do mundo.
Uma apresentação começa com uma introdução, seguida por um desenvolvimento e termina com uma conclusão. É o caso do Alcorão, começa com “A Abertura” (Al-Fâtiḥah), capítulo 1; desenvolve-se a partir de “A Vaca” (Al-Baqarah), capítulo 2, até ao final do livro; conclui com capítulos que datam principalmente o início da Revelação. Isto para salientar a importância dada à origem.
Ao contrário do que foi instituído após o Profeta, não é a sua emigração para Medina (Hégira, 622) que marca o início do calendário muçulmano; este pode inferir-se do Alcorão (capítulo 97), começa com a Revelação do Alcorão, em 610 (capítulo 96). O Islão original abrange toda a Revelação (610-632), enquanto o tradicionalismo ideológico gosta de se focar e ancorar-se no calendário hegírico. Todos os historiadores muçulmanos, incluído os tradicionalistas, afirmam que o calendário hegírico foi adotado após o Profeta. O Alcorão faz prevalecer a data da Revelação: “(…) melhor do que mil meses”[47]. O senso comum dita que um calendário seja considerado desde o início do original; é óbvio que o Islão não começou com a Hégira, mas com a Revelação do Alcorão.
A adoção, após o Profeta, do calendário hegírico tem implicações sentenciosas de ordem política, teológica e jurisprudencial. De certa forma, ela permitiu e ainda permite que os tradicionalistas falsamente sustentassem as suas ideologias, privilegiando o período de Medina em detrimento do período de Meca. O Alcorão afirma: “(…) acreditais (credes), acaso numa parte do livro e negais a outra parte? (…)”[48].
Após a morte do Profeta, em 632, e da grande subversão de 656- 680[49], desde há séculos, as causas primeiras da fraturação e da divisão da comunidade muçulmana em fações provêm de conflitos puramente políticos e do crédito considerável que estas concedem às recolhas de tradições relativas aos antigos e aos dizeres, feitos e gestos do Profeta (o salaf[50], o ḥadîth[51] e a sunnah[52]).Com efeito, cada corrente compreende o Alcorão e o Islão segundo o que ele retém destas compilações, o que dá lugar às interpretações, teológicas e jurisprudenciais, de facto sociopolíticas, frequentemente contraditórias. Os historiadores, de todas as disciplinas, enunciadores[53] incluídas, debatem ainda hoje em dia a validade histórica destas tradições. Apesar disto, para muitos muçulmanos, elas sobrepõem-se ao Alcorão, tornado-e a fonte do que os divide.
A análise científica do conjunto destas recolhas de tradições, datáveis de cento e cinquenta a duzentos e cinquenta e cinco anos após a morte do Profeta, ensina-nos que estes não oferecem nenhuma garantia concreta de autenticidade, de exatidão e ainda menos da precisão das declarações que eles referem. Constituídos a partir de diversas cadeias de transmissão oral, têm apenas uma abordagem aproximativa dos factos históricos. De algumas centenas de propostas no início, multiplicaram-se em menos de um século para se tornarem milhares. A narratologia, ela, demonstra-nos que as mais antigas destas narrações começaram a surgir no final do 7º século e no início do 8ºséculo[54], o que coincide com o fim da guerra civil. É nesta época que surgem as diversas correntes de pensamento políticas, teológicas e jurisprudenciais, que estão na base de todas as tradições nos muçulmanos.
Estas compilações de tradições são então decorrentes de uma multitude de acontecimentos e circunstâncias vividos pelos muçulmanos após a morte do Profeta, e representam conceções ideológicas, políticas e sociológicas relacionadas com as suas épocas. Os seduzíveis e os adversários do Islão aproveitam estas compilações de conteúdo incerto e validam-nas para aprender aí o que serve os seus desígnios; e é desta forma que desvirtuam e o Islão. Com efeito, algumas narrações nestas recolhas interpretam o Alcorão grosseiramente, até mesmo ao encontro do sentido literal e alegórico dos seus versículos, e atribuem ao Profeta tomadas de posição, comportamentos e ate totalmente opostos ao seu caráter e à Mensagem do Islão.
Os obscurantistas, os criminosos e os islamofóbicos fazem crer aos ignorantes que o Islão é sinónimo de ódio e violência. O seu discurso incendiário desperta inimizade e discórdia, incitando a uma luta entre civilizações. Se não tivermos cuidado, o caos instala-se.
“Por certo, Deus Ordena a justiça e a benevolência e a liberalidade para com os parentes, e Proíbe indecência, e mal manifesto, e transgressão. Ele vos exorta, para meditardes 90[55]; “E não sejais como os que se separam e discreparam, após lhes haverem chegado as evidências; e esses terão formidável castigo 105[56]; “(…) e não sejais dos idólatras 31 Dos que separam sua religião e se dividiram em partidos, cada partido se regozijando no que está consigo próprio 32[57]. Contudo muitos estão entrincheirados em múltiplas fações, excomungando-se mutuamente, abandonando a mensagem original e universal do Islão, interpretando o Alcorão sem beber da sua essência, porque perderam e esqueceram o coração, em proveito de tradições incertas, discutidas e discutíveis. “E entre os homens há o que disputa no que respeita a Deus sem conhecimento ou guia ou um Livro esclarecido 8[58].
 
 « (…) et ne soyez des associants 31 De ceux qui ont discerné leur créance (religion) et étaient propagandeurs, toute coalition, par ce qui est devers eux, contents 32 »
 
Terrível é o exemplo de alguém que escuta mas não ouve nada, que aprende mas não compreende nada, que pensa saber mas não sabe nada, que faz mas não se aplica em nada; em última análise, no final de contas não serve para nada a não ser para fazer o mal … toda uma vida sem conhecimento ou consciência na rotina diária. Isto pode fazer rir, mas no entanto é triste.
Eu sou Muçulmano, eu testemunho que não há nenhum deus além de Deus, Único, sem parceiros. E testemunho que Mohammad é seu Servo e seu Mensageiro, ou seja, que a Reivindicação, a Religião com Deus, é a Pacificação, o Islão, a submissão a Deus em paz. Eu não testemunho que Abî-Bakr, Omar, Othman ou Ali são mensageiros de Deus. Eles são apenas muçulmanos parentes do Profeta, que tinham ou não razão, e que não podem ser irrepreensíveis na sua essência. Só Deus É Perfeito e Absoluto. Eu não me refiro a nenhuma escola teológica ou jurisprudencial em particular, isso não me impede de sentir profundamente como sendo meu dever defender, apesar da sua diversidade, a comunidade muçulmana, da qual faço parte. E recuso-me com todas as minhas forças que a dividam ainda mais. Eu posiciono-me contra as excomungações e os separatistas sejam eles quem forem. Deus  não ama nem a agressão nem os agressores. Ele É A Testemunha e Ele É O Juiz; e ninguém pode pretender ter o céu ou o inferno, exceto Ele.
Para o crente, Deus Ele mesmo É a Verdade, O Soberano, a Verdade Suprema; A Verdade Inefável. Além d’Ele, ninguém é dono da Verdade Absoluta, cada um a sua verdade; para dizer que existem tantos pontos de vista sobre a verdade como existem opiniões. No entanto, “A verdade vale apenas pela unidade total de sua expressão, enquanto que as objeções e heresias têm sempre a facilidade de atacar no detalhe” (Blondel). A verdade é o conhecimento reconhecido como justo, consistente com seu propósito e possuindo um valor universal, absoluto, final; a norma, o princípio da justiça, da sabedoria, considerado universalmente como um ideal na ordem do pensamento e/ou da ação.
Algumas doutrinas político-teológicas e jurisprudenciais, herdadas da história dos muçulmanos, subsequentes ao Profeta, são contrárias ao espírito do Islão original. No entanto, infelizmente, muitos ainda hoje as proclamam como verdades imutáveis ​​e eternas. Já não é, prioritariamente, a Mensagem original do Islão e os seus valores universais que são ensinados, omitidos ou esquecidos, mas as doutrinas ritualísticas de outra época, com as perspectivas do passado! Não é o Islão que precisa de reforma, é o tradicionalismo que deve ser alterado e dessacralizado. Ensina lembranças de tradições, em vez da Religião “Aqueles que mencionam Deus, estando em pé, sentados ou deitados, e meditam na criação dos céus e da terra (…)”[59].
 
As atuais instituições religiosas perpetuam, incentivam e difundem o tradicionalismo ideológico, o ritualismo e conformismo; elas não têm como prioridade defender a Mensagem original do Islão enunciada e veiculada no Alcorão do e pelo Profeta, sobre o tradicionalismo inaugurado depois dele e instituído como religião desde então. Está na hora dos muçulmanos fazerem esta distinção, encontrarem o significado original do Islão e consequentemente, reformularem.
O Islão original, durante a vida do Profeta, referido e explicado no Alcorão, deve ser a principal referência de cada Muçulmano digno do seu nome. Esse Islão representa a Ciência, o Conhecimento, a Tolerância e o Progresso. O tradicionalismo é sinónimo de passado congelado na história, ido e não reprodutível; A História avança para a frente e não recua independentemente do que façamos, é a Lei de Deus. Além disso, a ideologia tradicionalista é um vector, por excesso e por defeito, de estagnação intelectual, superstição, fetichismo, dogmatismo uniformismo, ignorantismo e obscurantismo; muitos males a evitar.
Sem realmente ter em consideração a Mensagem original do Islão, muito menos os dados históricos e sociológicos ou os fatos circunstanciais de época, de local, de causa e de finalidade, os tradicionalistas reavivam o ḥadîth, o que teria dito o Profeta, para legitimar as suas ideologias e as suas interpretações do Alcorão. Contudo Deus diz: “Nem ele fala de seu próprio desejo 3 Nada mais é que uma revelação que é Revelada 4[60]. Constatamos por estes versículos que não podemos certificar como declaração do Profeta que o que lhe foi revelado por Deus, a saber o Alcorão. Com efeito a injunção de Deus “Diz!” é repetida trezentas e trinta e duas vezes no Alcorão[61]. E esta injunção divina, tantas vezes reiterada, é inerente à transmissão contínua da mensagem claro (bem entendido). É o que disse o Profeta de maneira certa, é o que que Deus lhe ordenou de dizer por revelação, no Alcorão. “Estes são os Sinais (Versículos) de Deus que Nós te Repetimos com verdade. Em que depois, rejeitando discurso (ḥadîthin), de Deus e Seus Sinais (Versículos), crerão eles? 6[62].
 
Quanto à sunnah[63], a tradição, moda dos feitos e gestos do Profeta, encontramo-la também, e mais autenticamente, no Alcorão. Ele é aí qualificado de homem de grande criatividade, de moralidade, encontramos aí relatado o que ele deve dizer ou fazer; como ele deve transmitir o Alcorão, agir face às situações que se lhe apresentam… O Alcorão especifica mesmo como ele deve manter, comportar-se com a sua família, o seu filho adotivo, os crentes e os homens em geral, inclusivamente como se casar ou divorciar. A palavra “sunnah”, moda, é citada dezasseis vezes no Alcorão[64], em referência a Deus ou aos antigos antes do Profeta, nem uma única vez em ligação com o próprio Mohammad.
Os fanáticos pseudo-religiosos se inspiram no tradicionalismo, portanto, na história dos muçulmanos, e não no próprio Islão. Devemos, portanto, agir para informar e ensinar o Islão original (durante a vida do Profeta) e distinguir o islão tradicionalista (após a morte do Profeta) elaborado, costituído e estabelecido pelas circunstâncias político-teológicas, sociológicas e históricas, combinado com a Mensagem original do Islão (Conhecimento, Fé, Caridade, Tolerância e Pacificação).
O Islão original é a Religião de Deus, está expresso no Alcorão. O tradicionalismo ideológico é consequente à história dos muçulmanos após o Profeta, portanto, não pode ser considerado parte do cânone da Religião. Perante as circunstâncias graves e alarmantes que a nossa sociedade moderna atravessa, posso pensar que compete a todos encorajar, apoiar e promover as obras e os trabalhos científicos relacionados com o Islão original. Na realidade, o Islão original, com aqueles trabalhos científicos, é mais aptos a combater, neutralizar e eliminar de forma eficaz e duradoura o ultra-tradicionalismo ideológico, vetor de tantas danos e desgraças. Os presunçosos são barulhentos; no entanto quando você expõe um assunto cientificamente, habilmente, e com maestria, eles são confusos e a sua resposta é expor a sua incapacidade.
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Referamo-nos então ao Livro de Deus, para todos os muçulmanos. É um versículo incontornável, que é imprescindível considerar para uma melhor compreensão do Alcorão: “Ele É Quem fez Descer sobre ti o Livro; em que há versículos decisivos, são eles a base do Livro-e outros, ambíguos. Então, quanto àqueles, em cujos coraçãos há deslize, eles seguem o que há de ambíguo nele, em busca de sedição e em busca de sua interpretação. E ninguém sabe a sua verdadeira interpretação senão Deus, e aqueles que estão firmemente fundados em saber, os quais dizem, ‘Nós cremos nele; tudo vem De Nosso Senhor’; e não prestam atenção senão os dotados de entendimento 7[65].
Este versículo, longe de ser insignificante, é claro e preciso, sobretudo para o sábio que estuda o conjunto do corpus. A atenção para dois níveis de análise, igualmente importantes, frástica e transfástica, do Alcorão. O primeiro diz respeito ao próprio conteúdo do Livro, imutável e intemporal, está na base da mensagem original do Islão. O segundo diz respeito à sua forma de aplicação, que pode implicar várias significações, circunstanciais de época, de local, de causa e de finalidade.
Às vezes, as nossas certezas precisam ser reexaminadas, reavaliadas, e até mesmo reformadas, para se encontrar o verdadeiro sentido de uma Causa. O Alcorão menciona a lei do talião relativamente aos anciãos, formados então em sociedades primitivas; no entanto, fez prevalecer a narrativa (faculdade de narrar e agir em conformidade) para “os sensatos, aqueles que compreendem o essencial”. O nível de conhecimento atingido nas nossas sociedades modernas não nos permite agir por instinto e espírito de vingança, mas sim pela prevenção e uma justiça civilizadoras. “Tendes, no narrativa, a segurança da vida, ó sensatos, para que vos refreeis!”[66]. Enquanto tu não esvaziares o teu coração da raiva e do ódio, tu não o poderás preencher com o Amor de Deus e espalhá-lo na Sua Criação.
Outro exemplo, fora do tradicionalismo há alguma declaração no Alcorão que obrigava os muçulmanos a sacrificar animais, fosse qual fosse a circunstância? Obviamente que não. A palavra “oferta”, hadyu em árabe, pode assumir vários contornos circunstanciais de tempo, lugar e finalidade. É esse termo que é usado no Alcorão para designar peregrinação, enquanto a palavra “abate” (dhabḥ) é usada para representar o sacrifício de Abraão; a dissimilaridade é linguisticamente significativa e longe de ser fortuita. Entre imolar um animal e oferecer um presente, a diferença pode ser grande. Em consequência do que se afirma, é a matança anual de milhões de animais no Aïd/Tabaski consistente, coerente e conciliável com o Islão original? Esta é uma das questões fundamentais para qualquer indivíduo que acredita em Deus e é temente a Ele.
Recorde-se que a tradição conta que o Profeta sacrificou-se, na sua peregrinação, numa determinada circunstância, pour toda a sua comunidade. O seu gesto equivale a todos os sacrifícios de animais perpetuados desde então e até ao fim dos tempos. Por conseguinte, no dia de Aïd, qualquer Muçulmano pode ser absolvido, através de uma oferenda, hadyu, independentemente da sua natureza; sem recorrer obrigatoriamente a uma degolação: “Nem as suas carnes nem o seu sangue chegam até Deus, mas alcança-O a vossa piedade, assim vo-los sujeitou, para que glorifiquem a Deus, por haver-vos Encaminhado; e rejubilem os benfeitores”[67].
 
 
“E não há ser animado (animal) na terra nem voador (volátil) que voe com as suas asas que, das nações, vossos exemplos”[68]. O verdadeiro Muçulmano não pode desconsiderar, maltratar, aviltar ou debilitar qualquer animal nem matá-lo sem motivo válido, menos ainda por prazer. Mesmo para se alimentar, ele não pode matar um animal de forma insensivel, ele deve considerar o seu ato em Nome de Deus como uma operação sacrificial; isto é, excecional e com temor a Deus, O Vivificador do sopro de toda a vida.
“Deus fez Descer a mais bela narrativa,  um Livro de partes semelhantes, reiterativo. De ouvi-lo, as peles dos que temem o Seu Senhor arrepiam-se; em seguida, suas peles e seus corações tornam-se dúcteis à menção de Deus ; essa é a Guia de Deus, com ela Ele Guia a quem Lhe Apraz; e aquele a quem Deus Descamina, não terá guia algum 23[69].
O Islão prega a contenção e a moderação em todas e para todas as coisas, longe do extremismo e dos extremos. “(…) e a vestimenta da piedade, esta é a melhor, esse é um dos Sinais de Deus; para meditarem!”[70]. Cobrir a sua cabeça, usar barba, o qamis/daffah, o boubou ou o djellaba, o véu, o niqab, a burka ou o tchador; tudo isso resulta do tradicionalismo e não tem nada a ver com o Islão original enquanto religião. Bem pelo contrário, todas estas manifestações prejudicam hoje a imagem do Islão e dos muçulmanos, maioritariamente nos países não muçulmanos; são sinónimo de obscurantismo, de sectarismo, de provocação e de agressão. Para o Muçulmano sábio, responsável e consciente do verdadeiro Islão, é inconcebível vê-lo assim deturpado e reduzido a estas ostentações. O Islão das luzes, na origem do surgimento das ciências modernas, é desvirtuado pelo tradicionalismo ideológico em religião ritualista, conformista e retrógrada. Os muçulmanos devem despertar para o Islão original, o Islão da ciência e do progresso; eles devem também se preservar e preservar a sua religião de qualquer preconceito prejudicial.
A adoração de Deus não se materializa por apetrechos ostensivos nem ritualismo encantatório; menos ainda por gestos ilusórios, palavras sem saber e sacrifícios insignificantes. Cristaliza-se na justa decisão seguida da boa ação. Adorar e servir a Deus, é amar e servir a Sua Criação; é pensar e agir bem, é ser útil e não fútil. Ser Muçulmano, crente e praticante, é ser sábio, pacificado e pacificador, seguro, tranquilizador e apaziguador, bom, benevolente e benfeitor; é viver e morrer pacificamente.
“E assim Fizemos de vós uma nação mediana para que sejais testemunhas dos homens, e para que o mensageiro seja testemunha de vós (…)”[71]; “E esforçai-vos por Deus como se deve esforçar por Ele. Ele vos há Escolhido, e não vos Fez constrangimento algum, na religião; a crença de vosso pai Abraão, ele vos nomeou “os pacificados” (muçulmanos) antes e neste, para que o mensageiro seja testemunha de vós, e vós sejais testemunhas da humanidade (…)”[72]; “(…) Deus vos Deseja a facilidade e não vos deseja a dificuldade (…)”[73].
Um Muçulmano é aquele que tem um pacto com Deus para crer Nele, para o adorar pelo Islão, aquele que leva a alma, com toda a pureza, a agir com bondade, para realizar a caridade, para aconselhar o apropriado e reprovar o condenável, para chamar as pessoas para Deus, para o humanismo, para a reforma e para a justiça. Ele tem uma vantagem neste mundo e o melhor de Deus. Na verdade, a melhor provisão é a devoção. Aquele que se levanta com Deus, que bebe e come com Deus, que trabalha e descansa com Deus, que dorme e sonha com Deus, que pensa, fala e age com Deus, que é pobre e que é rico com Deus, que é saudável e que está doente com Deus, que é novo e velho com Deus, que vive e que morre, com Deus nos lábios e no coração; aquele neste mundo e no outro; aquele se levanta, bebe e come, trabalha e descansa, dorme e sonha, pensa, fala e age, vive e morre em paz. Em paz consigo mesmo, com os homens, com os seres e as coisas; em conformidade, em paz com Deus, O Sumamente-Bom. Eis os justos.
Os muçulmanos devem regressar à Mensagem original do Islão, a de ontem, a de hoje e a de amanhã. Eles devem reconstruir-se numa comunidade de justo equilíbrio, a comunidade de “Iqra’”, de “Ligar e Lê” pelo Saber de Deus.
Eles devem em primeiro lugar sair do torpor e do medo que os sobrecarregam, e denunciar energicamente tudo o que e todos os que por ódio e a violência deformam a sua religião. Ele incumbe-os de despertarem e de reabilitarem o Islão original aos olhos do mundo; o Islão do Iluminismo, da ciência e do progresso, da paz, da liberdade de consciência e da tolerância. Os muçulmanos devem praticar assiduamente a benevolência e a caridade: a fé em Deus é indissociável da boa e bela obra, em simultâneo, uma com a outra. Saimbam amar os vossos próximos, sejam bons para com os vossos vizinhos, alimentem os famintos, ajuntai os orfãos; eis o que está bem, que é justo e que não é em vão.
“Sois a melhor nação que se fez sair para a humanidade: ordenais o conveniente e coibis o reprovável e credes em Deus. E, se os seguidores do Livro cressem, ser-lhes-ia melhor por certo. Dentre eles, há os crentes[74], mas sua maioria é perversa 110[75]; “Pelo tempo! 1 Por certo, o ser humano está em perdição 2 Exceto os que crêem e fazem as boas obras, e se recomendam, mutuamente, a verdade, e se recomendam, mutuamente, a paciência 3[76].
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O homem, com todos os seus conhecimentos, sente a necessidade de alimentar a sua alma, a sua busca espiritual exige respostas. Ora a vaga das seitas de inspiração judaico-cristã ou extremo Oriental, derivadas do Budismo ou do Hinduísmo, diminuiu. Tentou-se espiritualizar o materialismo e inversamente, mas o resultado não foi o esperado. Será também o caso do sectarismo doutrinal dos muçulmanos extraviados. Em contrapartida, o Islão, com a sua mensagem original, e original, fará redescobrir ao homem a sua humanidade e a sua razão de ser; tal é a sua vocação universal. “(…) e quem teme a Deus, Ele lhe Preparará uma saída 2 E lhe Dará, por onde não suporá, e quem confia em Deus, Ele lhe Bastará. Por certo, Deus Atinge o que Quer de Sua Ordem; Deus Fez para cada cousa uma medida 3[77].
O Sol levanta-se a ocidente (9ª edição – 2018), SCDOFG

 

 

[1] 570-632.

[2] Capítulo 42, versículo 52.

[3] Capítulo 29, versículo 48.

[4] Capítulo 93, versículos 4 a 11.

[5] Capítulo 33, versículo 40.

[6] Capítulo 5, versículo 3.

[7] Capítulo 3, versículo 19.

[8] Capítulo 112, versículos 1 a 4.

[9] Capítulo 5, versículo 3.

[10] Capítulo 24, versículo 35.

[11] Capítulo 39, versículo 41.

[12] Capítulo 30, versículo 30.

[13] Capítulo 96, versículos 1 a 5.

[14] Capítulo 2, versículo 31.

[15] Capítulo 16, versículo 27.

[16] Capítulo 30, versículo 56.

[17] Capítulo 7, versículo 176.

[18] Capítulo 59, versículo 21.

[19] Capítulo 10, versículo 24.

[20] Capítulo 2, versículo 219.

[21] Capítulo 3, versículo 191.

[22] Capítulo 10, versículo 5.

[23] Capítulo 30, versículo 22.

[24] Capítulo 29, versículo 43.

[25] Capítulo 35, versículo 28.

[26] Capítulo 29, versículo 49.

[27] Capítulo 58, versículo 11.

[28] Capítulo 30, versículo 56.

[29] Capítulo 22, versículo 54.

[30] Capítulo 17, versículo 89.

[31] Capítulo 59, versículo 21.

[32] Capítulo 26, versículos 23-24.

[33] Capítulo 37, versículos 4-5.

[34] Capítulo 16, versículo 49-50.

[35] Capítulo 15, versículo 9.

[36] Capítulo 56, versículos 77-80.

[37] Capítulo 85, versículos 21-22.

[38] Capítulo 30, versículo 41.

[39] Capítulo 4, versículos 26-28.

[40] Capítulo 61, versículo 9.

[41] Al-dajjâl (الدجال) : o anticristo.

[42] Capítulo 5, versículo 77.

[43] Capítulo 2, versículo 30.

[44] Biblia, Genesis, 3:6.

[45] Capítulo 20, versículo 44.

[46] Capítulo 7, versículo 12 e capítulo 38, versículo 76.

[47] Capítulo 97, versículo 3.

[48] Capítulo 2, versículo 85.

[49] Primeira discórdia e guerra civil entre muçulmanos.

[50] A palavra salaf  significa "precedente", designando por acréscimo os doutores muçulmanos dos primeiros séculos.

[51] A palavra ḥadîth significa "enunciado", designando por acréscimo o que o Profeta teria dito.

[52] A palavra sunnah ou sîrah significa "modo", "conduta", designando por extensão a tradição do Profeta : o que é relatado da sua conduta , dos seus feitos e gestos.

[53] Al-muḥaddithûn, especialistas dos dizeres atribuídos ao Profeta.

[54] Posteriores a 680.

[55] Capítulo 16, versículo 90.

[56] Capítulo 3, versículo 105.

[57] Capítulo 30, versículos 31-32.

[58] Capítulo 22, versículo 8.

[59] Capítulo 3. versículo 191.

[60] Capítulo 53, versículos 3-4.

[61] Na maioria das vezes, esta injunção é destinada ao Profeta.

[62] Capítulo 45, versículo 6.

[63] Quer dizer que quando um ḥadîth, uma sunnah ou sîrah, do Profeta, são úteis cientificamente, devem ser considerados circunstancialmente.

[64] Catorze vezes no singular e duas vezes no plural.

[65] Capítulo 3, versículo 7.

[66] Capítulo 2, versículo 179.

[67] Capítulo 22, versículo 37.

[68] Capítulo 6, versículo 38.

[69] Capítulo 39, versículo 23.

[70] Capítulo 7, versículo 26.

[71] Capítulo 2, versículo 143.

[72] Capítulo 22, versículo 78.

[73] Capítulo 2, versículo 185.

[74] Em língua árabe, as palavras "segurança", "fé" e "crença" (îmân, إیمان) têm a mesma raiz (A-M-N, أ م ن): confiança, segurança, seguro. Na língua corânica, a fé adquire-se pelo saber, certificando-se e assegurando; é muito mais do que de uma crença vaga e relativa. Deus É Evidente, racionalmente, apenas podem testemunhar; e o testemunho deve fazer-se em conhecimento de causa, recorrendo à ciência e consciência. O crente, que eu traduzo por o que assegura, se assegura e assegura-se, instruindo-se da Obra de Deus; é assim que ele se torna seguro e securizante, seguro e assegurado (mu’min, مؤمن).

[75] Capítulo 3, versículo 110.

[76] Capítulo 103, versículos 1-3.

[77] Capítulo 65, versículos 2-3.

 

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