– Em língua árabe, as palavras “mundo” e “sábio” (Σâlam e Σâlim) têm a mesma raiz (Σ-L-M) ciência, saber, conhecimento. O mundo é intimamente ligado ao saber,ao conhecimento objetivo que temos dele; só existe através desta informação primordial. O mundo real apenas pode ser percecionado por intermédio do conhecimento científico, qualquer escapatória é subjetiva; resultam assim os mitos e as lendas, sinónimos de fetichismo e de superstição. É assim que os antigos, salvo exceções, conceberam mundos fabulosos e imaginários de maneira especulativa, sem verdadeiros fundamentos científicos. Contudo, e a seu crédito, tinham esta consciência, especificamente inteligente, que o mundo tem um sentido e uma razão de ser. É esta situação que está na origem da investigação científica e dos seus resultados que constatamos atualmente e todos os dias.
– Em língua árabe, as palavras “segurança”, “fé” e “crença” (îmân, إیمان) têm a mesma raiz (A-M-N):confiança, segurança, segurança. Na língua corânica, a fé adquire-se pelo saber, certificando-se e assegurando; é muito mais do que de uma crença vaga e relativa. Deus É Evidente, racionalmente, apenas podem testemunhar; e o testemunho deve fazer-se em conhecimento de causa, recorrendo à ciência e consciência. O crente, que eu traduzo por o que assegura, se assegura e assegura-se, instruindo-se da Obra de Deus; é assim que ele se torna seguro e securizante, seguro e assegurado (mu’min, مؤمن).
-Em língua árabe, a palavra “religião” (dîn, دین) exprime o sentido de aproximação, de obrigação, de dever e de dúvida, neste caso, é a crença devida a Deus; consequentemente, traduzo religião por crença.
– Em língua árabe, as palavras “injustiça” e “obscuridade” (ẓulm, ẓulmah, ظﻠم ظﻠﻤﺔ ) têm a mesma raiz (Ẓ-L-M). Uma lógica inerente à língua árabe explica o vínculo entre injustiça e obscuridade: na obscuridade agimos sem correção, agimos às cegas, deslocamos as coisas de forma incorreta, desviamos, perdemo-nos e desviamo-nos; desta forma o obscurado é obscurecido, ele aprecia e age injustamente, torna-se ele próprio obscurecedor. Consequentemente, traduzo a palavra injusto por obscurantista.
Etimologicamente, em língua árabe, o Islão (الإسلام) significa a Pacificação: a ação de pacificar, de estabelecer, de restabelecer, e de manter a paz; a submissão pela paz a Deus. O Islão é a materialização da Paz (al-silm, al-salâm, السّلم السّلام): aquele que se submete a Deus pacifica-se (yuslim, يسلم), põe fim às tormentas do seu espírito, os movimentos de revolta nele e em seu redor; ele é pacificado, muçulmano (muslim, مسلم) e pacifista (mussâlim, مسالم) : ele aspira à quietude, à segurança e à tranquilidade, ele não é a favor, ou pelo conflito e a revolta; consequentemente, ele adquire um coração pacífico (salîm, سليم), são e santo, em paz com Deus e a Sua Criação.
O contexto histórico do advento do Islão partilha certos pontos comuns com a nossa época. Tal como hoje, o mundo conhecido era dominado, no início do sétimo século, por potências antagónicas, os impérios persa e bizantino. Existiam outras civilizações, tais como os Grandes povos da Índia e da China, sem esquecer as civilizações pré-colombianas, outros países ricos e outros países pobres. Havia também povos rudes e tribos que, desde há séculos, perpetuavam os mesmos modos de vida, como subsistem atualmente alguns grupos vivendo à margem da civilização…
As preocupações de ordem filosófica e as crenças religiosas das tribos da Arábia eram muito arcaicas comparadas às religiões existentes, quer sejam monoteístas, Judaísmo, Cristianismo e Zoroastrismo, então espalhadas no mundo conhecido, mesmo nas regiões mais recuadas do deserto da Arábia, ou consideradas como politeístas, Taoísmo, Xintoísmo, Hinduísmo, Budismo…
O politeísmo e a idiolatria que reinavam nas tribos da Arábia eram como as representações dos Deuses sendo elas próprias consideradas como realmente divinas e personificadas como tais. E mesmo se os seus crentes cressem num Deus dos Deuses, este não estava seguro da sua superioridade, era posto em competição com as divindades menores que, frequentemente, eram mais venerados que ele. O grau de evolução dos Árabes, então, comparado ao das grandes civilizações do seu tempo, era muito rude.
O contexto histórico, religioso e sociocultural no qual viveu Mohammad (570-632), selo dos Profetas, é comparável ao de Abraão, pai dos muçulmanos. Este viveu numa época em que os sacrifícios humanos, particularmente de crianças, não eram raros. Na Arábia do início do sétimo século, a pobreza levava alguns a matar os seus filhos. Outros enterravam as suas filhas vivas, por vergonha ou por medo de desonra, sobretudo se elas eram as primeiras a nascer. Acontecia também que se imolasse um primeiro ou um último bebé homem a nascer, na sequência de uma promessa feita a um ídolo. Assim, o Islão surgiu onde dominava o obscurantismo do ignorantismo, no deserto.
Na origem, um homem, Mohammad, ao qual repudiavam os ídolos. Ele era chamado de al-amîne: “o segurador, o digno de confiança”. É a ele que Deus concede a Revelação pelo intermédio de um anjo, Gabriel (Jibrîl). Mohammad encontrava-se numa gruta chamada Ḥirâ’, na qual, há cinco anos, ele se refugiava durante o mês de ramadão, para refletir aí sobre a criação dos céus e da terra. Quanto ao resto do ano, ele geria os negócios da sua mulher e acompanhava as caravanas ao longo do deserto.
Deus escolhe sempre homens humildes, mas não banais. Ele concede-lhes da sua luz, quer dizer da sua ciência, e Ele faz deles guias, modelos, exemplos, para que eles saibam refletir e raciocinar. Escolhendo Mohammad, Deus distinguiu um homem que vivia de facto normal e simplesmente, e Ele revelou-lhe, como a todos os Profetas, que Ele É o seu Deus, O Deus de todos os homens, de toda a criação. Ele É O sem-princípio-nem-fim, Ele É, Ele Era, Ele Será sempre; Ele É um Tesouro Escondido, Ele Cria e faz-Se Conhecer. No Alcorão, é dito: «E assim Nós temos feito uma grande revelação por Nosso comando. Tu não sabias o que o livro era, nem qual a fé. Mas Nós temo-la feito – à revelação- uma luz, pela qual concedemos guia aquele dos Nossos servos que Nos apraz. E em verdade tu guias os homens para o caminho direito. (…)» (Alcorão /Capítulo 42, versículo 52); «E tu nunca recitaste nenhum livro antes dele, nem tu podias escrever um com a tua mão direita; nesse caso os mentirosos podiam ter duvidado (…)» (Alcorão/Capítulo 29, versículo 48).
Deus deu-lhe a luz, a ciência contida no Alcorão, o Livro do Discernimento (al-furqân): o Livro de Deus, para que ele o transmita aos homens. Rico graças à sua mulher, estimado dos seus pais e amigos, considerado pelos seus concidadãos, Mohammad, agora o depositário da verdade, ia ser posto à prova pelo mal e pelo bem, como todos os Enviados e Profetas de Deus antes dele, como todos os justos, como todos os homens. «Em boa verdade, cada hora que vier será melhor para ti do que a que a precede.-E em boa verdade logo o teu Senhor dar-te-á e tu estarás bem satisfeito – Não te achou Ele órfão e te protegeu? – E Ele te achou a vaguear na procura d’Ele e Ele te guiou par si próprio – E ele achou-te na penúria e enriqueceu-te – Por isso não oprimas o órfão –e com o mendigo não ralhes- E reconhece a beneficência do teu Senhor » (Alcorão/Capítulo 93, versículos 4 a 11).
Mohammad recebe um novo Livro Revelado, o Alcorão. Este credibiliza, restaura e complementa as revelações anteriores, está na continuidade da mensagem Divina transmitida por cada, no seu tempo e a seu povo. Nisto, Mohammad é o selo dos Profetas, com ele a Crença, a Religião é completa, o monoteísmo fixa-se definitivamente. «Mohammad não é pai de nenhum dos vossos homens, mas ele é o mensageiro de Deus, e Deus tem conhecimento de todas as coisas» (Alcorão/Capítulo 33, versículo 40); « (…)Este Dia aperfeiçoei Eu para vós a vossa religião e completei o favor que vos concedo, e para vós escolhi o Islão como religião. (…)» (Alcorão/Capítulo 5, versículo 3); «Por certo, a verdadeira religião com Deusé Islão (…)» (Alcorão/Capítulo 3, versículo 19).
Assim, o politeísmo que, apesar da emergência das religiões monoteístas, permanecia largamente preponderante desde os tempos mais remotos, começou a declinar, ainda mais que atualmente, com o desenvolvimento sem precedente das ciências, o tema central, mesmo e sobretudo nos sábios, é Deus O Único: «EM NOME DE DEUS, O CLEMENTE, O MISERICORDIOSO. “Dize-lhe-Ele é Deus, o Único – Deus, o independente e Suplicado de todos – Ele não gera nem é gerado; E não há nenhum igual a Ele. “» (Alcorão/Capítulo 112, versículo 1 a 4).
« (…) Este Dia aperfeiçoei Eu para vós a vossa religião e completei o favor que vos concedo, e para vós escolhi o Islão como religião (…) » (Alcorão/Capítulo 5, versículo 3). Este versículo é o último a ter sido revelado, o ponto final da Revelação. O Islão, última religião revelada, era inteiro e aprovado como tal a partir deste dia. Qualquer acréscimo posterior a esta revelação decorre das múltiplas circunstâncias da história dos muçulmanos, e não pode ser considerado como fazendo parte do cânone do Islão. Dizer o contrário, é enunciar que a Religião não tem fé complementada na revelação deste versículo, contrariamente ao que ele afirma.
Assim, desde Adão, primeiro humano, até Mohammad, selo dos Profetas, passando por Abraão, Moisés e Jesus, a Mensagem divina é sempre a mesma, veiculada sob diferentes formas e complementada com o Islão.
Com o Alcorão, Mohammad recebia a última religião mas sempre a mesma mensagem: Deus dotou-te de razão, estuda o passado e o presente, aprende pela ciência e pelo conhecimento, observa o céu, os astros, a terra, o mar, a vida, a morte, todas as coisas pequenas e grandes. Então, tu conhecerás, tu conhecê-Lo-ás, tu poderás então testemunhar que não existe outro Deus além de Deus, e tu saberás como e por quê viver. Tu não adorarás, tu não servirás outros “Deuses” sem ser Deus O Único, O Verdadeiro, assim tu trabalharás com equidade e bondade, tu não farás o mal, tu não corromperás a Criação. Tu agirás assim, porque tu saberás que Ele é Deus e que Ele é Aquele que Cria e que Julga.
«Deus é A Luz dos céus e da terra. A similitude da Sua Luz é como um nicho, dentro do qual está uma lâmpada. A lâmpada está num vidro. O vidro é como se fosse uma brilhante estrela. A sua luz vem de uma árvore abençoada, uma oliveira, nem do oriente nem do ocidente, cujo óleo quase continuaria a dar luz mesmo que o fogo o não tocasse: luz sobre luz. Deus guia a sua luz para quem Ele quer. E Deus estabelece parábolas para os homens, pois Deus conhece todas as coisas.» (Alcorão/Capítulo 24, versículo 35); «Na realidade Nós te havemos revelado o Livro para o bem da humanidade, com verdade. Quem quer que siga a guia segue-a para benefício da sua própria alma; e quem quer que se extravie extravia-se apenas contra ela. E tu não és um guardião deles.» (Alcorão/Capítulo 39, versículo 41).
«De modo que põe a sua face, para o serviço de religião como devotado a Deus, e sede fiel à natureza designada por Deus; em que Ele há modelado a humanidade. Não há que alterar a criação de Deus. Essa é uma fé para sempre» (Alcorão/Capítulo 30, versículo 30). Religião da boa e bela obra, do justo equilíbrio, da moderação, o Islão é a religião da ciência, do conhecimento de Deus pela sua criação. Um dos elementos, e não dos menos relevantes, que distingue o Alcorão das revelações anteriores é a sua insistência sobre as noções de ciência e de conhecimento. Adicionalmente, a primeira palavra da Revelação a Mohammad fé: «Iqra’ ! (Lê!) » ; «Em nome de Deus o Clemente, o Misericordioso. Recita tu em nome do teu Senhor que te criou –Criou o homem de um aderência– Recita! Pois o Teu Senhor É O Mais-Caritativo – Que ensinou o homem pela pena –Ensinou ao homem o que ele não sabia» (Alcorão/Capítulo 96, versículos 1 a 5).
Quanto ao primeiro homem designado como humani, é Adão e a primeira vez e que é citado no Alcorão, Deus diz: «E Ele ensinou a Adão todos os nomes, (…)» (Alcorão/Capítulo 2, versículo 31). É assim claro que, no Alcorão, o princípio do ser humano está ligado ao conhecimento. A primeira coisa de Deus, que recebeu Adão, é o saber de todos os nomes, e a primeira ordem de Deus a Mohammad fé: «Lê!». A Mensagem de Deus ao homem, desde o princípio até Mohammad até ao fim dos tempos, é: Lê, aprende, conhece a criação de Deus, para conhecer Deus e agir em conformidade; quer dizer de forma correta e com bondade, porque tu serás julgado. E o Dia da Ressurreição: «(…)Os que forem dotados de Conhecimento dirão:Neste dia desgraça e aflição sem dúvida cairão sobre os incréus “» (Alcorão /Capítulo 16, versículo 27) ; «Mas aqueles a quem são dados conhecimento e fé dirão “Vós haveis de facto ficado para trás, segundo o Livro de Deus até ao dia da Ressurreição.E este é o Dia da Ressurreição, mas a vós não vos importaria saber “» (Alcorão/Capítulo 30, versículo 56). Significa a que ponto o saber constitui o primeiro mandamento de Deus no Islão.
No Alcorão, muito numerosos são os versículos que valorizam a reflexão, o raciocínio e referem os sábios: «(…)De modo que dai-lhes descrição para que eles possam ponderar !» (Alcorão/Capítulo 7, versículo 176); «(…) Tais similitudes, Nós Apresentamos à Humanidade para que ela possa refletir !» (Alcorão/Capítulo 59, versículo 21); «(…)assim Nós expomos os Sinais, para um povo que reflete » (Alcorão/Capítulo 10, versículo 24) ; «(…)Assim vos torna Deus claros os seus mandamentos para que vós possais refletir !» (Alcorão /Capítulo 2, versículo 219); «Os que se lembram de Deus de pé, sentados ou deitados de lado, e ponderam acerca da criação dos céus e da Terra; Nosso Senhor Tu não criaste isto em vão; De mais a mais Tu és Santo; salva-nos, então, do castigo do fogo “» (Alcorão/Capítulo 3, versículo 191).
«É Ele quem faz o sol radiante, e a lua lustrosa, e para ela determinou fases, para que vocês possais saber o número de anos e a conta do tempo. Deus não criou isto senão em verdade. Ele pormenoriza os Sinais para um povo que tenha conhecimento» (Alcorão/Capítulo 10, versículo 5); «E dos Seus Sinais é a criação dos céus e da terra, e a diversidade das vossas línguas e cores; nisso sem dúvida estão sinais para os que sabem» (Alcorão/Capítulo 30, versículo 22); «E estas são similitudes que Nós estabelecemos para a humanidade, mas apenas as compreendem os que têm conhecimento» (Alcorão/Capítulo 29, versículo 43); «(…) apenas aqueles dos seus servos que estão possuídos de conhecimento temem Deus .Em boa verdade Deus é Poderoso, Indulgente» (Alcorão/Capítulo 35, versículo 28); «Realmente, ele é uma coleta dos Sinais iluminantes no coração daqueles a quem é dado conhecimento. E apenas os que fazem o mal é que negam os Nossos Sinais» (Alcorão/Capítulo 29, versículo 49); « (…) Deus elevará aqueles dentro vós que creem e aqueles a quem o conhecimento é dado, a altas categorias. E Deus está bem ao corrente do que vós fazeis» (Alcorão/Capítulo 58, versículo 11).
«Mas aqueles a quem são dados conhecimentos e fé dirão: (…)» (Alcorão/Capítulo 30, versículo 56). Neste versículo, a palavra “saber” precede a palavra “fé”, ambos devem ser considerados simultaneamente, um com o outro. Com efeito o resultado do saber conjugado com a fé é a paz, a serenidade, um coração pacífico, são e santo. Sem saber nem discernimento, qualquer crença está dependente das circunstâncias e da paixão, que conduzem ao melhor e/ou pior; a História prova-o.
Por outro lado, para ser Muçulmano, é necessário testemunhar que só existe Deus. E para ser uma verdadeira testemunha, para poder atestar a verdade, a realidade, é necessário um saber, um conhecimento dos factos e das coisas. Com este saber adquirido, acedemos então à fé pela razão e pelo coração, tornamo-nos humildes na paz e amor de Deus, sabemos donde vimos e onde vamos, agimos com benevolência e bondade, distinguimos o bem do mal, o verdadeiro do falso. «E para que aqueles a quem tem sido dado conhecimento possam saber que isso é a verdade da parte do seu Senhor, de modo que eles possam crer nela e o seu coração se possa tornar humilde para com Ele. E de seguro, Deus guia os que creem para o caminho direito» (Alcorão/Capítulo 22, versículo 54).
Contrariamente à Bíblia e à maioria dos livros sagrados, que narram cronologicamente a história da criação, do mundo, do homem, dos Profetas e dos Mensageiros, o Alcorão ele, excecionalmente para José ou excecionalmente, não relata os acontecimentos de uma só vez, num determinado capítulo, mas fragmentados e apresentados de maneira não linear, no conjunto do corpus. Não se trata de relatar, forçosamente, fatos históricos em si, mas de suscitar a investigação, a análise e a reflexão científica, que eleva a alma ao Islão. Ao contrário do que pensam e pregam alguns, o Alcorão não se apresenta como um livro de história, nem como um código civil e penal, na aceção literal das palavras. A sua compreensão profunda passa por uma análise pluridisciplinar rigorosa com binóculos, à lupa e ao microscópio. Ele é a Revelação de Deus, a Sua Palavra endereçada à razão e ao raciocínio do homem.
«E seguramente já fizemos Variar para as pessoas, neste Alcorão (corrente), de qualquer exemplo; então a maioria das pessoas apenas opinaram difamações» (Alcorão /Capítulo 17, versículo 89); «Se Nós tivéssemos feito Descer este Alcorão sobre uma montanha, tu tê-la-ias visto humilhar-se e fender-se de meio a maio por temor a Deus.Tais similitudes Nós apresentamos à Humanidade para que ela possa refletir (Alcorão /Capítulo 59, versículo 21).
De todos os Atributos com que Deus se qualifica a Si-Próprio no Alcorão, o do Senhor dos Mundos, tão frequentemente repetido, quarenta e duas vezes sob esta forma, destaca a universalidade do Islão, a religião à qual são convidados todos os homens. Deus não é o Senhor do único céu e da única terra, Ele é o Senhor dos Mundos: dos céus, da terra e do que há entre eles. Este enunciado, se escapasse parcialmente à compreensão dos primeiros muçulmanos, adquire toda a sua significação à luz dos conhecimentos modernos. «Faraó disse: “E o que é o Senhor dos mundos?”–Ele [Moïsés] disse: “O Senhor dos céus, e da terra, e do que está entre os dois; se vós quisésseis crer!”» (Alcorão /Capítulo 26, versículos 23-24); «Em boa verdade o Vosso Criador é uno – Senhor dos Céus e da terra, e de tudo que está entre eles e o Senhor do sol nascente. » (Alcorão/Capítulo 37, versículos 4-5).
No meio de biliões de galáxias e de sistemas solares, se os cientistas se colocam ainda a questão de saber se há outros Seres Vivos no Universo, o Alcorão, ele, afirma-o: «E o quer que esteja nos céus e qualquer criatura que esteja na terra submetem-se humildemente a Deus, e os anjos também, e eles não se comportam orgulhosamente -Eles temem o seu Senhor acima de si e fazem o que lhes é ordenado» (Alcorão/Capítulo 16, versículo 49-50).
No deserto, há mais de mil e quatrocentos anos, Deus Revela a Mohammad que este Livro, o Alcorão, esta advertência que Ele dirige aos homens, não sofrerá alteração, porque é Ele Deus que o Preserva. E com efeito, o Alcorão é hoje considerado pelos especialistas (cientistas) como o livro sagrado mais conforme ao que era na origem. «Em boa verdade Nós, Nós próprios havemos enviado esta exortação e muito sem dúvida, Nós seremos o seu Guardião» (Alcorão/Capítulo 15, versículo 9).Posto isto, resta ainda aceder ao cerne da sua mensagem: «Por certo é seguramente um Alcorão (corrente) abundante – Numa escrita protegida – Apenas os Purificadores a podem tocar – Descida do Senhor dos Mundos» (Alcorão/Capítulo 56, versículos 77 a 80); «Que este é na verdade um glorioso Corão na forma de um Livro bem preservado Que nenhum tocará a não ser os que estão purificados» (Alcorão/Capítulo 85, versículos 21-22).
No tempo do Profeta, cada civilização tinha os seus próprios valores, e as noções do bem e do mal divergiam de um povo para o outro. A humanidade atingiu, a partir da segunda metade do século vinte, um elevado nível de civilização e de conhecimento; as ciências e as tecnologias sofriam um desenvolvimento sem precedente. Mas no que se refere à falibilidade do homem: se as circunstâncias mudaram, a mentalidade permaneceu geralmente a mesma. A corrupção e o mal predominam ainda, têm nomes: injustiça, manipulação das massas, obscurantismo, miséria, guerras, massacre, crises e tráfegos de todo o género, degradação do ambiente, extinção das espécies, poluição, alteração climática… «A corrupção apareceu na terra e no mar por causa do que as mãos dos homens têm obrado, para que Ele lhes possa fazer provar o fruto de algumas das suas ações, a fim de que eles possam regressar do pecado !» (Alcorão/Capítulo 30, versículo 41).
Atualmente o Islão e os muçulmanos tornaram-se na assombração do mundo, com muita frequência falamos apenas em termos de guerra, de terrorismo, de imigrantes ou de migrantes. Em África, na Ásia, na América do Sul e noutros locais pelo mundo, florestas são destruídas, lagos e rios são secos, terras e localidades são tragadas, populações inteiras são deslocadas, milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza, centenas de milhares são vítimas da fome, assassinatos, raptos, do tráfico de órgãos, milhões de mulheres são agredidas e violentadas, centenas de milhares de crianças são escravas …Isto, não é falado senão quando ultrapassa um certo limite de monstruosidade; ou então na altura da copa de futebol.
Outro paradoxo, enquanto o Islão dá cartas inclusive no campo científico, o mundo muçulmano atual, ele, longe de ser o modelo a seguir, está à deriva. Estas duas constatações são suficientes para provar que o Islão se distingue pela sua originalidade divina, muçulmanos falíveis por natureza. E é dito no Alcorão: «Deus deseja tornar-vos claros os caminhos dos que foram antes de vóse para eles vos guiar e voltar-Se para vós com misericórdia. E Deus é Todo-Conhecedor, Sábio.- E Deus deseja voltar-Se para vós com misericórdia. Mas os que seguem o seu baixo desejo querem que vos extravieis para longe-Deus deseja aliviar a vossa carga, pois o homem foi criado fraco.» (Alcorão/Capítulo 4, versículos 26 a 28).
O Islão manifesta-se mesmo numericamente, com mais de um bilião e meio de fiéis sobre o planeta e o aumento contínuo dos que o escolhem, o que fará com que seja a curto prazo a primeira religião na terra. O progresso do Islão, contrastando com a degenerescência de alguns muçulmanos, explica-se pela universalidade da sua mensagem original, que não conseguem conter as vicissitudes às quais são confrontados os muçulmanos há séculos. «Ele é que há Enviado o Seu Mensageiro como guia e a Religião da verdade, para que Ele possa fazer com que ela prevaleça sobre todas as religiões, mesmo que os associem partícipes a Deus a odeiem.» (Alcorão/Capítulo 61, versículo 9).
Simultaneamente, a aparição do charlatão (الدجال) e do charlatanismo é, a partir de agora, efetiva no mundo; eles têm como característica apresentar-se por falsas aparências de virtude e piedade. Muitos são os que creem, até que a luz do conhecimento, irrevogavelmente, manifesta-se e permite confundir estas forças obscuras e malfeitoras. Sob a capa de um islão desnaturado pelos ignorantistas, fanáticos, corruptores da fé, exímios na ignomínia, cometem os piores crimes contra Deus e a humanidade. Desvirtuando O Islão e todos os valores morais, universais, eles cultivam a discórdia, o ódio do outro, a violência e o sectarismo. Se é inegável que estes criminosos demoníacos visam e ameaçam a civilização na sua totalidade, os muçulmanos são as primeiras vítimas das suas teorias e das suas práticas horripilantes.
Alguns, perdidos, passam o seu tempo a magoar-se, frequentemente da forma mais sincera possível. Uns e outros clamando “Deus É O Mais Elevado!” e, tanto num campo como no outro, eles pretendem defender a justa causa de Deus. Eles estão num estado de restrição mental por onde se perpetua o obscurantismo, a superstição e a violência. Muitos tornaram-se reféns ou marionetas de um dogmatismo e de um passado terminados. Que dizer senão: “Lâ ḥawla wa lâ quwwata illâ billâh, não existe ambiente e força senão por Deus?“. «Dizei: “Ô povo do Livro, não ultrapassai injustamente os limites na matéria da vossa religião, nem segui as más inclinações de um povo que antes foi desencaminhado e que fez com que muitos se desencaminhassem e que se tem desencaminhado do caminho direito “ » (Alcorão/Capítulo 5, versículo 77).
Após a morte do Profeta, em 632, e da grande subversão de 656- 680 (primeira discórdia e guerra civil entre muçulmanos), desde há séculos, as causas primeiras da fraturação e da divisão da comunidade muçulmana em fações provêm de conflitos puramente políticos e do crédito considerável que estas concedem às recolhas de tradições relativas aos antigos e aos dizeres, feitos e gestos do Profeta (o salaf, “precedente”, designando por acréscimo os doutores muçulmanos dos primeiros séculos” , o ḥadîth, “enunciado”, designando por acréscimo o que o Profeta teria dito , e a sunnah ou sîrah, “modo”, “conduta”, designando por extensão a tradição do Profeta : o que é relatado da sua conduta , dos seus feitos e gestos).Com efeito, cada corrente compreende o Alcorão e o Islão segundo o que ele retém destas compilações, o que dá lugar às interpretações, teológicas e jurisprudenciais, de facto sociopolíticas, frequentemente contraditórias. Os historiadores, de todas as disciplinas, enunciadores (especialistas dos dizeres atribuídos ao Profeta) incluídas, debatem ainda hoje em dia a validade histórica destas tradições. Apesar disto, para muitos muçulmanos, elas sobrepõem-se ao Alcorão, tornado-e a fonte do que os divide.
A análise científica do conjunto destas recolhas de tradições, datáveis de cento e cinquenta a duzentos e cinquenta e cinco anos após a morte do Profeta, ensina-nos que estes não oferecem nenhuma garantia concreta de autenticidade, de exatidão e ainda menos da precisão das declarações que eles referem. Constituídos a partir de diversas cadeias de transmissão oral, têm apenas uma abordagem aproximativa dos factos históricos. De algumas centenas de propostas no início, multiplicaram-se em menos de um século para se tornarem milhares. A narratologia, ela, demonstra-nos que as mais antigas destas narrações começaram a surgir no final do 7º século e no início do 8ºséculo (posteriores a 680),o que coincide com o fim da guerra civil. É nesta época que surgem as diversas correntes de pensamento políticas, teológicas e jurisprudenciais, que estão na base de todas as tradições nos muçulmanos.
Estas compilações de tradições são então decorrentes de uma multitude de acontecimentos e circunstâncias vividos pelos muçulmanos após a morte do Profeta, e representam conceções ideológicas, políticas e sociológicas relacionadas com as suas épocas. Os seduzíveis e os adversários do Islão aproveitam estas compilações de conteúdo incerto e validam-nas para aprender aí o que serve os seus desígnios; e é desta forma que desvirtuam e o Islão.Com efeito, algumas narrações nestas recolhas interpretam o Alcorão grosseiramente, até mesmo ao encontro do sentido literal e alegórico dos seus versículos, e atribuem ao Profeta tomadas de posição, comportamentos e ate totalmente opostos ao seu caráter e à Mensagem do Islão.
«Em boa verdade, Deus ordena justiça, e o fazer bem a outros, fazendo bem a outros como entre parentes; e proíbe indecência, e mal manifesto, e transgressão. Ele admoesta-vos para que vós possais ter cautela» (Alcorão/Capítulo 16, versículo 90); «E não ser como aqueles que se tronaram divididos e que discordaram entre si depois de claras provas lhes terem vindo. E é para esses que haverá um grande castigo» (Alcorão/Capítulo 3, versículo 105); «(…) e não sede dos que atribuem partícipes a Deus–Dos que desunem a sua religião e se dividem em partidos, cada partido se regozijando no que está consigo próprio » (Alcorão/Capítulo 30, versículos 31-32). Contudo muitos estão entrincheirados em múltiplas fações, excomungando-se mutuamente, abandonando a mensagem original e universal do Islão, interpretando o Alcorão sem beber da sua essência, porque perderam e esqueceram o coração, em proveito de tradições incertas, discutidas e discutíveis «E entre os homens há o que disputa no que respeita a Deus sem conhecimento ou guia ou um Livro esclarecido» (Alcorão/Capítulo 22, versículo 8).
Sem realmente ter em consideração a mensagem original do Islão, muito menos os dados históricos e sociológicos ou os fatos circunstanciais de época, de local, de causa e de finalidade, os tradicionalistas reavivam o ḥadîth, o que teria dito o Profeta, para legitimar as suas ideologias e as suas interpretações do Alcorão. Contudo Deus diz: «Nem ele fala de seu próprio desejo – Nada mais é que uma revelação que é revelada.» (Alcorão/Capítulo 53, versículos 3-4). Constatamos por estes versículos que não podemos certificar como declaração do Profeta que o que lhe foi revelado por Deus, a saber o Alcorão. Com efeito a injunção de Deus “Diz!” é repetida trezentas e trinta e duas vezes no Alcorão (na maioria das vezes, esta injunção é destinada ao Profeta). E esta injunção divina, tantas vezes reiterada, é inerente à transmissão contínua da mensagem claro (bem entendido). É o que disse o Profeta de maneira certa, é o que que Deus lhe ordenou de dizer por revelação, no Alcorão. «Estes são os sinais de Deus queNós te repetimos com verdade. Em que depois, rejeitando discurso (ḥadîthin), de Deus e Seus sinais, crerão eles?» (Alcorão/Capítulo 45, versículo 6).
Quanto à sunnah, a tradição, moda dos feitos e gestos do Profeta, encontramo-la também, e mais autenticamente, no Alcorão. Ele é aí qualificado de homem de grande criatividade, de moralidade, encontramos aí relatado o que ele deve dizer ou fazer; como ele deve transmitir o Alcorão, agir face às situações que se lhe apresentam… O Alcorão especifica mesmo como ele deve manter, comportar-se com a sua família, o seu filho adotivo, os crentes e os homens em geral, inclusivamente como se casar ou divorciar. A palavra”sunnah“, moda, é citada dezasseis vezes no Alcorão (catorze vezes no singular e duas vezes no plural), em referência a Deus ou aos antigos antes do Profeta, nem uma única vez em ligação com o próprio Mohammad. Quer dizer que quando um ḥadîth, uma sunnah ou sîrah, do Profeta, são úteis cientificamente, devem ser considerados circunstancialmente.
Referamo-nos então ao Livro de Deus, para todos os muçulmanos. É um versículo incontornável, que é imprescindível considerar para uma melhor compreensão do Alcorão: «Ele é Quem te enviou o Livro; há nele versículos cujo significado é decisivo-eles são a base do Livro-e há outros que são suscetíveis de diferentes interpretações. Mas aqueles em cujo coração há perversidade seguem de entre eles são suscetíveis de diferentes interpretações buscando e procurando interpretá-lo erradamente. E ninguém sabe a sua verdadeira interpretação senão Deus, e aqueles que estão firmemente fundados em saber, os quais dizem, “Nós cremos nele; ele vem inteiramente de nosso Senhor”; e só os que são dotados de entendimento prestam atenção.» (Alcorão/Capítulo 3, versículo 7).
Este versículo, longe de ser insignificante, é claro e preciso, sobretudo para o sábio que estuda o conjunto do corpus. A atenção para dois níveis de análise, igualmente importantes, frástica e transfástica, do Alcorão. O primeiro diz respeito ao próprio conteúdo do Livro, imutável e intemporal, está na base da mensagem original do Islão. O segundo diz respeito à sua forma de aplicação, que pode implicar várias significações, circunstanciais de época, de local, de causa e de finalidade.
«Deus há enviado a mais bela mensagem na forma de um Livro, consistente em si, muita vez repetida à vista do qual treme a pele dos que temem o Seu Senhor, depois a sua pele e o seu coração abrandam com a lembrança de Deus. Tal é a guia de Deus; com ela Ele guia a Quem lhe apraz. E aquele a quem Deus considera extraviado não terá guia.» (Alcorão/Capítulo 39, versículo 23).
O Islão prega a contenção e a moderação em todas e para todas as coisas, longe do extremismo e dos extremos. «E assim Nós vos fizemos uma nação exaltada para que vós posseis ser guardiões de homens, e para que o Mensageiro de Deus possa ser um guardião de vós (…)» (Alcorão/Capítulo 2, versículo 143); «E esforçai-vos na causa de Deus como é obrigação por la se esforçar. Ele vos há escolhido, e não há posto nenhumas dificuldades sobre vós em religião-segui a fé de vosso pai Abraão. Ele é que vos há chamado muçulmanos antes e neste Livro, para que o Mensageiro possa ser uma testemunha por vós, e para que vós possais ser testemunhas pela humanidade.» (Alcorão/Capítulo 22, versículo 78); « (…) Deus deseja dar-vos facilidades e Ele não deseja causar-vos gravame (…) » (Alcorão/Capítulo 2, versículo 185). Os muçulmanos devem regressar à mensagem original do Islão, a de ontem, a de hoje e a de amanhã. Eles devem reconstruir-se numa comunidade de justo equilíbrio, a comunidade de “Iqra’ “, de “Ligar e Lê” pelo Saber de Deus.
Eles devem em primeiro lugar sair do torpor e do medo que os sobrecarregam, e denunciar energicamente tudo o que e todos os que por ódio e a violência deformam a sua religião. Ele incumbe-os de despertarem e de reabilitarem O Islão original aos olhos do mundo. A fé em Deus é indissociável da boa e bela obra, em simultâneo, uma com a outra. «Vós sois o melhor povo, criado para o bem da humanidade: vós prescrevereis o que é bom e proibis o mal e credes em Deus. E se povo do Livro tivesse crido, melhor teria, por certo, sido para eles. Alguns deles são crentes, mas a maior parte deles são desobedientes» (Alcorão/Capítulo 3, versículo 110); «Sem dúvida, o homem estánum estado de perda a não ser os que creem e praticam boas obras, e se exortam uns aos outros à verdade, e se exortam uns aos outros à paciência (» (Alcorão/Capítulo 103, versículos, 1 a 3).
O homem, com todos os seus conhecimentos, sente a necessidade de alimentar a sua alma, a sua busca espiritual exige respostas. Ora a vaga das seitas de inspiração judaico-cristã ou extremo Oriental, derivadas do Budismo ou do Hinduísmo, diminuiu. Tentou-se espiritualizar o materialismo e inversamente, mas o resultado não foi o esperado. Será também o caso do sectarismo doutrinal dos muçulmanos extraviados. Em contrapartida, o Islão, com a sua mensagem original, e original, fará redescobrir ao homem a sua humanidade e a sua razão de ser; tal é a sua vocação universal. «(…) E para o que teme Deus ele preparará uma saída. -E providenciará para ele um lado que ele não espera E para o que deposita a sua confiança em Deus. Ele bastará. Em boa verdade, Deus levará a cabo o seu propósito .Para todas as coisas Deus tem designado uma medida. » (Alcorão/Capítulo 65, versículos 2-3).
Farid Gabteni
O Sol levanta-se a ocidente (8ª edição – 2017), SCDOFG
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