Por Farid Gabteni
Pode acreditar-se sem ser crédulo? Esta é uma questão recorrente no Ocidente, onde estamos habituados a opor a fé à razão. No entanto, um olhar atento não deixará de observar que o divórcio entre crença e inteligência é específico da cultura ocidental. Em nenhuma outra civilização atingiu tais proporções. Em nenhuma outra cultura, a religião foi tanto sinónimo de obscurantismo, isto é, de negação da faculdade do homem de sopesar e de julgar por si mesmo.
Os fundamentos deste pensamento foram lançados no século XVIII, o chamado Século das Luzes. Nessa época, os intelectuais e filósofos animaram um formidável movimento de emancipação relativamente às autoridades eclesiásticas, operando uma deslegitimação da influência do religioso sobre a esfera intelectual; uma verdadeira revolução, na verdade, inédita na história da humanidade e cujas consequências culturais ainda são percetíveis três séculos mais tarde.
A abordagem crítica desse período foi muito pouco praticada, porque essa revolução foi sempre apresentada como uma vitória do homem sobre o irracional. Embora o contexto desta emancipação tenha sido o de um ocidente enfermo do seu judaico-cristianismo, sem qualquer referência, nesse tempo, a outras religiões ou culturas do mundo, esta oposição entre fé e razão foi generalizada ao conjunto das crenças da humanidade. Foi o próprio fenómeno da fé que foi posto em causa, como se o menor pensamento religioso não fosse mais do que a expressão da fraqueza do homem, do seu medo do desconhecido.
A questão é saber se este pensamento “revolucionário” não terá sido demasiado radical, ou mesmo extremista nas suas conclusões, ao ponto de erguer barreiras contra qualquer forma de pensamento, a partir do momento em que seja religioso ou mesmo apenas metafísico. Trata-se, realmente, de uma questão fundamental, uma vez que toca o sentido da existência, da vida.
Na aurora do novo milénio, o mundo inteiro está confrontado com inúmeras crises, ecológicas, sociais, políticas, económicas, éticas… e todas convergem. No entanto, as ciências e as técnicas são o domínio de uma evolução verdadeiramente vertiginosa. O paradoxo é cada vez mais acentuado entre a ciência e os conhecimentos técnicos, por um lado, e o definhar do sistema que os engendra, por outro.
A pergunta “Para onde vamos?” regressa com força, colocando em perspetiva as transformações frenéticas de uma sociedade cada dia mais globalizada, composta por indivíduos desorientados. A evolução já não é dominada, pois já só é conduzida por descobertas tecnológicas, sem verdadeiras preocupações com os fatores sócioeconómicos, sociais, psicológicos… Numa palavra, simplesmente humanos.
Ao mesmo tempo e por outras razões, a questão de Deus é novamente atual. Com efeito, o mundo científico está mais do que nunca confrontado com a extraordinária organização do Universo, da vida, do homem… Sabemos hoje e de forma científica que o Universo tem precisamente, desde a origem, as propriedades necessárias para que existamos e para que possamos apreendê-lo.
A questão de um Princípio Criador, de uma Causa Primeira, inteligente e lúcida, coloca-se agora cientificamente. Mas encará-la de forma refletida tem pesadas consequências. Leva-nos novamente a uma verdadeira revolução cultural, pondo em causa postulados com mais de dois séculos.
Vou resumir algumas teorias científicas e o seu alcance filosófico, bem como certos factos, agora estabelecidos cientificamente, e a sua consequência lógica para a nossa compreensão do mundo. Pretendo, desta forma, demonstrar que o conjunto do nosso Universo é muçulmano: submetido-pacificado a Deus, e que testemunha que é criado e agenciado pelo Deus Único, sem nenhum associado. Cada um poderá verificar a autenticidade de cada facto que avançarei. Desenvolverei o meu argumento citando vários trabalhos e descobertas de cientistas ilustres. Os sábios teístas não param de lembrar ao mundo inteiro que estas descobertas científicas convergem todas para demonstrar a existência de um Princípio Criador e Organizador, a que nós, crentes, chamamos Deus. É este lembrar que tento transmitir, por minha vez.
« Dize-lhes: “Uma vez que [o Alcorão] emana de Deus e o rechaçais… haverá alguém mais extraviado do que aquele que está num profundo cisma?” 52 De pronto lhes mostraremos os Nossos sinais em todas as regiões (da terra), assim como em suas próprias pessoas, até que lhes seja esclarecido que ele é a verdade. Acaso não basta teu Senhor, que é Testemunha de tudo? 53 Não é certo que estão em dúvida quanto ao Comparecimento Ante o seu Senhor? Acaso não é verdade que Deus é Omnímodo? 54 »[1]
A Europa viveu durante séculos sob o jugo do pensamento único e da Inquisição, que só foi definitivamente abolida, em Espanha, em 1834. Formular uma ideia nova ou declarar uma opinião contrária à religião reinante expunha, então, os seus autores às piores perseguições e, muitas vezes, à morte. Depois de sete séculos de presença muçulmana em Espanha e de quatro na Sicília, não resta nenhum muçulmano autóctone nesses lugares, de tal forma que, no início do século XX, já não havia na Europa senão populações cristãs e uma minoria judaica que escapara. E, mesmo assim, uma grande parte desta foi praticamente exterminada durante a Segunda Guerra Mundial. Em nenhum outro lugar do planeta e em nenhuma outra civilização foi atingido este grau de repressão da diferença e da liberdade de pensamento e de crença. Na China, na Índia, no Médio Oriente, em África e noutros lugares, continuam a coexistir, no mesmo país, diferentes comunidades étnicas e religiosas. No século XVIII, os norte-americanos, mais do que libertarem-se do domínio económico e político da Coroa britânica, queriam libertar-se de um sistema secular opressivo e opressor da liberdade.
A ciência e a filosofia modernas começam na Europa com, entre outros, Galileu (1564-1642), Johannes Kepler (1571-1630), René Descartes (1596-1650), Blaise Pascal (1623-1662), Isaac Newton (1643- 1727), Edmund Halley (1656-1743), David Hume (1711-1776), Emanuel Kant (1724-1804), Antoine Lavoisier (1743-1794), Friedrich Hegel (1770-1831), Carl Gauss (1777-1855), Charles Darwin (1809-1882), Karl Marx (1818-1883), Louis Pasteur (1822-1895)… Na sua esteira, a intelligentsia europeia dos séculos XVIII e XIX começou por exigir reformas políticas e sociais; depois, valendo-se dos conhecimentos “científicos” da época, por abater um sistema eclesiástico obscurantista e sufocante.
Essas elites, que só tinham o conceito de Deus através do cristianismo ou do judaísmo, pensavam que, se a Bíblia, pejada de inexatidões científicas, fosse desmistificada e dessacralizada, então o princípio da existência de Deus desapareceria. Muitos acreditavam que o Universo, com a sua mecânica celeste, não era maior do que a Via Láctea, que era eterno e imutável, sempre existira e sempre existiria. Quanto à vida, acreditava-se que podia emergir espontaneamente da matéria inerte, sob a influência de fatores físico-químicos. Deste modo, para muitos, tudo o que constitui o Universo e nele se constitui é produto do acaso.
Os hesitantes primórdios da ciência na sua infância, somados à perseguição eclesiástica na Europa, durante séculos, iriam produzir uma reação que se perpetuou até ao século XXI. É a partir da teoria da evolução de Darwin, da dialética de Hegel e do materialismo dialético de Marx que o ateísmo vem assumir a forma de um sistema ideológico. Agora, após mais de cem anos, supostamente com a cobertura da ciência, o ateísmo erigido em sistema é usado para formatar a humanidade à sua imagem, através da mediação da educação, dos média e de todos os meios possíveis de comunicação e de informação. É um facto que a lavagem ao cérebro ateísta é tal, que hoje a maioria das pessoas pensam que a fé e a ciência se opõem. Consumir, adquirir bens materiais, beber, comer, divertir-se, distrair-se tornaram-se os valores principais da vida do homem. A reflexão sobre a criação dos céus e da terra, sobre o “porque sou, vivo e morro”, tudo isso tornou-se secundário e até mesmo anormal para alguns.
Poucas pessoas sabem, hoje, que a maioria dos cientistas do nosso tempo são crentes e que muitos dos que eram ateus se tornaram crentes. Isso é ciosamente impedido de ser demasiado divulgado. Devemos também dizer que alguns desses cientistas preferem manter-se discretos, por preocupação com as suas carreiras. Na verdade, o establishment ateu substituiu o da igreja e agora é ele quem faz a chuva e o bom tempo. Ai daqueles que o contestem: são “excomungados”, vilipendiados, denegridos e amordaçados, se possível.
E, no entanto, Deus existe e as descobertas científicas em todos os domínios provam-no todos os dias. Mais ainda, podemos hoje, mais do que nunca, dizer que essas provas da existência de Deus são cientificamente irrefutáveis. De facto, a ciência moderna é muito mais favorável ao teísmo que ao ateísmo. Digo ao teísmo, que consiste em admitir a existência de um Deus único vivo e pessoal como causa transcendente do mundo. Mas também tudo isso é ciosamente mantido fora do conhecimento do grande público, exceto algumas franjas.
No final do século XIX e durante a primeira parte do século XX, muitos pensavam que o Universo era eterno e imutável. Este modelo cosmológico é chamado de “teoria do estado estacionário”. Apesar de todos os esforços e do encarniçamento dos teóricos para melhorar e manter essa teoria, já que permite subentender que, tendo o Universo existido sempre, não precisa portanto de criador, numerosas descobertas, entre as quais a forma de corpo negro[2] do fundo difuso cosmológico[3] demonstraram as imprecisões deste modelo. Alguns persistem em pensar que o Universo é um imenso sistema fechado, que constitui tudo o que existe a partir da matéria e da energia. Avançam como argumento o primeiro princípio da termodinâmica, o princípio da conservação da energia, segundo o qual a matéria e a energia não podem ser criadas nem destruídas, mas apenas reorganizadas.
Mas este argumento não o é, a menos que se ignore o segundo princípio da termodinâmica, segundo o qual, com o tempo, qualquer sistema isolado se desorganiza inevitavelmente e irreversivelmente. Então, como é que o Universo não está num estado de caos e de desordem termodinâmica? A resposta é que o Universo teve de começar num estado entrópico extremamente fraco, num momento preciso do passado e, depois, o regulador da termodinâmica pôs-se em ação. O que equivale a dizer que o primeiro princípio da termodinâmica, a confirmar-se, só se aplica após a criação do Universo, dentro deste, e não na sua origem.
« Não veem, acaso, os incrédulos, que os céus e a terra eram uma só massa, que desagregamos, e que criámos todos os seres vivos da água? Não creem ainda? 30 »[4]; « E construímos o firmamento com poder e perícia, e Nós o estamos expandindo 47 »[5]; « Então, abrangeu, em Seus desígnios, os céus quando estes ainda eram gases, e lhes disse, e também à terra: “Juntai-vos, de bom ou de mau grado” Responderam: “Juntamo-nos voluntariamente” 11 »[6]; « Não é dado ao sol alcançar a lua; cada qual gira em sua órbita; nem a noite, ultrapassar o dia 40 »[7]
Hoje, a grande maioria dos cientistas admitem que o Universo teve um começo e que antes não havia nem tempo, nem espaço, nem matéria, nem energia, nem nada; não havia “nada”. De repente, eis que o Universo começa, aparece e evolui… Alguns argumentam com a mecânica quântica para dizer que no início havia energia, partículas… e que tudo, incluindo a informação, foi produzido a partir daí. Se a mecânica quântica nos diz que uma partícula pode aparecer do nada, a isso chamam “flutuações quânticas do vácuo”; essas flutuações ocorrem de leis quânticas; estas prreexistem, pois, às flutuações.
As leis da mecânica quântica contêm a informação da formação de uma partícula, da sua transformação numa outra ou da sua destruição. A energia e as partículas não estão na origem da informação, mas o inverso é verdadeiro. O Universo começou, pois, com a informação, as leis da física, da energia, das partículas… Outros[8] concluem, apressadamente e grosseiramente, que o Universo surgiu graças às leis da física: por exemplo, pelo facto de a lei da gravidade existir, o Universo teria podido criar-se a si mesmo a partir do nada.
Além disso, se a informação estiver, de facto, na base de tudo,[9] mesmo assim o número 1 não produz nada; a lei aritmética 1 + 1 = 2 explica-me que, se, por exemplo, eu causar a adição de 1 livro + 1 livro, obtenho 2 livros, mas se eu não causar a ação de reunir 2 livros, a lei aritmética só por si não o pode causar. As leis matemáticas que permitem explicar e, assim, prever fenómenos naturais não os criam. Paralelamente, a lei da gravidade, que nem sequer explica a gravidade, não cria a gravidade ou a matéria sobre a qual a gravidade atua. Cria, por isso, ainda menos o Universo.
As leis da física não criam nada por si mesmas: mostram as relações entre os factos depois de introduzidos por uma causa. Um carro existe e percorre uma estrada graças às leis da física, mas estas não criaram, nem o carro, nem a estrada. As leis da física foram criadas por uma vontade inteligente e lúcida, tal como o carro e a estrada. E é preciso uma vontade inteligente e lúcida para conceber, pôr a trabalhar e conduzir um carro corretamente por uma estrada. O mesmo acontece para determinar as equações e iniciar e conduzir a formação e a evolução do mundo.
Desde a descoberta de uma vintena de números fundamentais em física atómica, as observações em astronomia e em física quântica mostram-nos que o Universo tem uma organização tão complexa que se torna vertiginosa. Estes números, que são constantes cosmológicas, descrevem-nos os parâmetros básicos, bem como as características do nosso Universo. Conseguimos determinar os valores de cada um desses números fundamentais, como a força da gravidade, a força do campo eletromagnético… Estes valores são equilibrados, ajustados e precisos até à perfeição.
Hoje, está claramente estabelecido que as leis da física tinham de ser muito específicas, ajustadas e precisas para permitirem a evolução do Universo e o surgimento da vida. É impossível atribuir ao acaso a extrema precisão da escolha das condições iniciais para a existência do Universo. É evidente que uma vontade inteligente e lúcida presidiu ao ajustamento destes parâmetros. Assim, a precisão exigida, no final da era de Planck, para a regulação da densidade do Universo, era de 10-60, o que equivale à precisão de um arqueiro que atingisse, com a sua flecha, um alvo de 1 cm2, colocado no extremo do Universo, a cerca de catorze mil milhões de anos-luz[10].
« O Livro-registo será exposto. Verás os pecadores atemorizados por seu conteúdo, e dirão: “Ai de nós! Que significa este Livro, não omite nem pequena, nem grande falta, senão que as enumera?” E encontrarão registado tudo quanto tiverem feito. Teu Senhor não defraudará ninguém 49 »[11]; « Nós ressuscitaremos os mortos, e registraremos as suas ações e os seus rastos, porque anotaremos tudo num Livro lúcido 12 »[12]; « Para certificar-se de que transmitiu as mensagens do seu Senhor, o Qual abrange tudo quanto os humanos possuem, e que toma conta de tudo 28 »[13]; « Mas anotamos tudo, me registo” 29 »[14]; « Ele já os destacou e os enumerou com exatidão” 94 »[15]
« O sol e a lua giram 5 »[16]; o primeiro está a cerca de 150 milhões de km da Terra, a segunda está a quase 400 000 km dela. Quatrocentas vezes mais próxima e quatrocentas vezes menor do que o sol, a lua, brilhantemente posicionada e dimensionada, oculta-nos completamente o sol durante eclipses totais. Estas relações dão a impressão aos nossos olhos de que ambos os discos, solar e lunar, são do mesmo tamanho.
Pensar que seriam golpes de sorte consecutivos que estariam na origem da existência do Universo e de nós mesmos é como acreditar que podemos ganhar na lotaria sistematicamente a cada sorteio, a cada segundo, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas, sem interrupção, durante catorze mil milhões de anos. Incapaz de explicar estes ajustes extremamente precisos das leis da física apenas por simples efeito do acaso, alguns argumentam com a teoria das cordas, ou com a ideia de que existem vários universos, ou mesmo uma infinidade deles, incluindo o nosso, cada um deles com as suas próprias leis, o que deixa a probabilidade de que pelo menos um deles será forçosamente bem ajustado. E bem… por mero acaso, “como de costume”, nós estamos dentro desse.
Se não podemos afirmar que estes “pluriversos” ou “multiversos” não existam, também muito menos podemos afirmar o contrário. Na verdade, não há a menor prova científica da sua existência, nem por teorização, e menos ainda pela observação, absolutamente impossível. Além disso, esta hipótese, ainda que alargue o campo das probabilidades, em nada põe em causa a constatação de um Princípio Criador e organizador que, esse, é comprovado diariamente pelo acumular de observações científicas, em todos os domínios, desde o macroscópico ao microscópico. A teoria das cordas e/ou os multiversos, várias dimensões, vários universos, nada disso diminui em nada, quantitativamente e qualitativamente, as probabilidades da existência desse Princípio Primeiro.
Várias propriedades físicas foram criadas para constituir um Universo que permitisse a vida. Se uma delas fosse apenas um pouco diferente, a vida como a conhecemos não poderia ter aparecido. Por exemplo, e entre outros, o carbono, sem o qual não haveria vida, é fabricado no interior das fornalhas nucleares das estrelas, por um processo extraordinariamente refinado. Isso só é possível graças ao fenómeno da ressonância, o efeito de reforço que torna o processo mais eficaz e maior a quantidade de carbono. Esta ressonância ocorre devido à extrema precisão das leis da física nuclear. Se estas leis variassem de maneira infinitesimal, então não haveria ressonância, ou esta estaria no sítio errado. Trata-se, mais uma vez, de um ajustamento extremo e delicado.
Podemos dizer que o Universo tem uma linguagem universal que consiste em instruções matemáticas, que estão na base das leis da física e de tudo o que existe neste Universo. Tudo o que podemos conhecer e observar deste mundo passa pelo domínio dessa língua, que se exprime em cada coisa. Estudai o céu, a terra, o homem, a formiga, a molécula, o átomo ou que quer que seja, e vereis a transcrição dessa linguagem. É o selo do Criador dos céus e da terra e do que existe entre os dois.
« Não reparas, acaso, em que tudo quanto há nos céus e tudo quanto há na terra se prostra ante Deus? O sol, a lua, as estrelas, as montanhas, as árvores, os animais e muitos humanos? Porém, muitos merecem o castigo! E quem Deus afrontar não achará quem o honre, porque Deus faz o que Lhe apraz 18 »[17]; « Ele possui as chaves do incognoscível, coisa que ninguém, além d’Ele, possui; Ele sabe o que há na terra e no mar; e não cai uma folha sem que Ele disso tenha ciência; não há um só grão, no seio da terra, ou nada verde, ou seco, que não esteja registado no Livro lúcido 59 »[18]
Estejamos cientes também de que árvores, plantas, folhas, flores, cores, conformam-se com as leis da natureza. Retomemos um exemplo frequentemente citado, a sequência de Fibonacci, a qual é obtida por adição dos dois anteriores números: 0 + 1 = 1, 1 + 1 = 2, 1 + 2 = 3, 2 + 3 = 5, 3 + 5 = 8, 5 + 8 = 13, 8 + 13 = 21, 13 + 21 = 34, 21 + 34 = 55, 34 + 55 = 89… Trata-se, pois, de uma lei matemática. Pois bem, esta manifesta-se praticamente em toda a parte na natureza. Por exemplo, as folhas de carvalho dispõem-se em torno do tronco a 2/5 em comparação com as folhas anteriores, as de faia a 1/3, as folhas e galhos de um olmo crescem e dispõem-se, em relação ao tronco, a meio caminho entre si; mais conhecido, o número de pétalas de uma margarida também obedece a esta regra matemática… Para se poder fazer a lista de tudo o que está em conformidade com esta lei, seriam necessário centenas de estudos. Seja qual for o tema tratado, podemos distinguir claramente que há um plano de instruções, sob a forma de estruturas matemáticas, que funciona perfeitamente e intencionalmente desde o início da criação. Todas as coisas e todos os seres, grandes ou pequenos, estão sujeitos Àquele que está na sua origem.
« Vosso Deus é Um só. Não há mais divindade além d’Ele, o Clemente, o Misericordiosíssimo 163 Na criação dos céus e da terra; na alteração do dia e da noite; nos navios que singram o mar para o benefício do homem; na água que Deus envia do céu, com a qual vivifica a terra, depois de haver sido árida e onde disseminou toda a espécie animal; na mudança dos ventos; nas nuvens submetidas entre os céus e a terra, (nisso tudo) há sinais para os sensatos 164 »[19]; « Não reparas em que Deus faz descer a água do céu? E produzimos, com ela, frutos de vários matizes; e também há extensões de montanhas, brancas, vermelhas, de diferentes cores, e as há de intenso negro 27 E entre os humanos, entre os répteis e entre o gado, há indivíduos também de diferentes cores. Os sábios, dentre os servos de Deus, só Ele temem, porque sabem que Deus é Poderoso, Indulgentíssimo 28 »[20]
A molécula de ADN é formada por dois fios que se entrelaçam em espiral; as informações, todos os pormenores físicos e fisiológicos de um ser vivo são codificados nos genes, segmentos dessa dupla hélice enrolada dentro dos cromossomas, dentro do núcleo da célula. As cadeias de ADN são formados pelo encadeamento de nucleótidos compostos por três elementos, um açúcar (desoxipentose), um ou mais grupos de fosfatos e uma base azotada.
A informação genética é dada pela combinação, duas a duas, das quatro bases de nucleótidos, constituindo, pela sua montagem, aquilo a que se pode chamar a base de dados de todas as informações sobre um ser vivo (genoma). Da mesma forma que no código Morse, composto por três elementos diferentes (ponto, traço e espaço), que se combinam para formar letras, que se combinam para formar palavras, que se combinam para formar frases; as quatro bases utilizadas na composição do ADN combinam-se, resultando na formação de vinte e dois aminoácidos, a partir dos quais são feitas cerca de cem mil proteínas… Na verdade, é uma linguagem que os biólogos estão a começar a descodificar. As informações específicas contidas no ADN não podem vir do acaso. De onde vêm as informações transcritas num jornal, num livro, num CD ou num disco rígido?
O corpo humano contém mais de cinquenta mil milhares de milhões de células, cada uma delas trabalha sozinha e em conjunto com as outras, dia e noite, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro. Cada célula, do tamanho de cerca de 1/100 de milímetro, contém três mil milhões de nucleótidos em cerca de dois metros de ADN compactado. A célula tem um núcleo que abriga os genes, o genoma, que contém as informações que dão as instruções à própria célula, aos órgãos e a todo o corpo, para funcionar. Há, portanto, um manual de informações e de instruções específicas no genoma de cada núcleo da célula, que é o equivalente a cerca de novecentos e cinquenta livros de quinhentas páginas. Trata-se de informações e de instruções. São, portanto, produzidas por uma vontade consciente e inteligente, como um programa é produzido por um programador. O acaso? O tempo? A evolução? Lançar tinta ao acaso sobre páginas brancas durante milhares de milhões de anos nunca produzirá uma letra, uma palavra, uma frase ou um parágrafo, muito menos um manual de informações e instruções tão específico e detalhado quanto o da célula.
A organização e o funcionamento do corpo e de cada célula são mais complicados e eficientes que a organização e o funcionamento de qualquer cidade do planeta. Além disso, é preciso imaginar essa metrópole a replicar-se praticamente de forma idêntica, em poucas horas, todos os dias. Este é o caso da célula. Hoje, com toda a nossa tecnologia moderna e sofisticada, não conseguimos criar uma única parte de uma célula verdadeiramente funcional. Cada célula tem uma membrana, provida de pontos de entrada, com guardas constituídas por proteínas e enzimas específicas. Estas guardas só permitem a entrada de certos tipos de elementos químicos. As células têm rotas especiais e meios de transporte dotados de sistemas de orientação para que os seus elementos autorizados a passar se dirijam para um destino específico. Cada célula contém o que é chamado de mitocôndria, que serve para fornecer energia à célula. Em cada célula, existem unidades de produção de proteínas, os ribossomas; estas proteínas, uma vez produzidas, são embaladas de modo a que não haja mau funcionamento durante o seu transporte. Uma vez chegadas, entidades químicas específicas ocupam-se de as descarregar. Em cada célula, exceto os glóbulos vermelhos, os lisossomas, estruturas esféricas rodeadas por uma membrana, têm por função degradar, digerir, os “resíduos” intracelulares… Quem está, então, por trás desta criação e desta organização?
« Ó humanos, eis um exemplo; escutai-o, pois: Aqueles que invocais, em vez de Deus, jamais poderiam criar uma mosca; ainda que, para isso, se juntassem todos. E se a mosca lhe arrebatasse algo, não poderiam dela tirá-lo, porque tanto o solicitador como o solicitado, são impotentes.” 73 “Não aquilatam Deus como (Ele) merece. Saibam eles que Deus é Forte, Poderosíssimo.” 74 »[21]
Os cientistas[22] calcularam a probabilidade de se obter, por acaso, mesmo que apenas uma breve proteína funcional, com cento e quarenta e nove aminoácidos de comprimento. Para obter uma sequência funcional de aminoácidos, há uma possibilidade de 1074. E não fica por aí, porque para se constituir uma proteína, os aminoácidos devem ser ligados em conjunto por ligações peptídicas; apenas uma conexão ocorre em cada duas vezes e não sistematicamente. Então, uma possibilidade em duas, exponenciando a 149, 150 para arredondar, é igual a uma possibilidade de 1045. E ainda não ficamos por aí: um aminoácido pode ser de conformação isomérica esquerda ou isomérica direita; pois bem, para se formar uma proteína, somente a conformação isomérica esquerda pode ser utilizada. Portanto, ainda temos uma possibilidade em duas, exponenciando a 150, o que equivale a uma possibilidade de 1045. O que nos faz no total, adicionando os expoentes: 1074 x 1045 x 1045 = uma possibilidade em 10164. Para se ter uma ideia do que um número dessa magnitude representa, devemos saber que, desde o início do Universo, só se passaram 1016 segundos, que em todo o Universo existem 1080 núcleos, e que desde o início do Universo aconteceram 10139 “eventos”.
« Lê, em nome do Teu Senhor Que criou 1 Criou o homem de um aderência 2 Lê, que o Teu Senhor é Generosíssimo 3 »[23]; « Criámos o homem de essência de barro 12 Em seguida, fizemo-lo uma gota, que inserimos em um lugar seguro 13 Então, convertemos a gota em aderência, que se agarra, transformámos a aderência em feto e convertemos o feto em ossos; depois, revestimos os ossos de carne; então, o desenvolvemos em outra criatura. Bendito seja Deus, Criador por excelência 14 Então morrereis, indubitavelmente 15 Depois sereis ressuscitados, no Dia da Ressurreição 16 » [24]
Enquanto se pensou que a célula era a unidade básica, que era simples e não complexa e eficiente, podia-se imaginar uma evolução involuntária e espontânea do organismo unicelular para organismos pluricelulares mais complexos. Mas hoje, a cada dia descobrimos mais complexidade e eficiência numa única célula. Mesmo um organismo vivo unicelular é dotado de capacidades extraordinariamente complexas. O material utilizado para fabricar uma porta, uma janela, uma cadeira, uma mesa, um armário, pode ser o mesmo. Mas o plano, o propósito, a realização são diferentes, e o resultado também. O homem distingue-se pela inteligência sem qualquer comparação com todo ser vivo da terra. Que possa ter laços com o macaco, a mosca ou a minhoca, isso em nada muda a sua especificidade especial e exclusiva. E não pode, em caso algum, ser fruto do acaso ou de uma simples evolução. Se evolução há, e há, porque todo o ser vivo evolui, a teoria da evolução, tal como nos tem sido inculcada, deve certamente ser revista, corrigida e atualizada.
Tudo o que começou ou começa a existir tem uma causa; vimos que o nosso Universo teve um começo e que Deus é a sua Primeira Causa. Criou e determinou todas as condições da sua existência e da sua realidade. Mas qual é então a causa dessa causa? Para reconhecer a causa de um facto, não sou obrigado a encontrar a causa dessa causa. Por exemplo, para reconhecer que o pão é feito pelo padeiro, não sou obrigado a saber de onde vem o padeiro. Caso contrário, seria dizer que não reconheço que o pão é feito pelo padeiro, porque não sei de onde vem o padeiro. Mas a questão é legítima num Universo onde cada coisa é causada por qualquer outra coisa. Agora, lembremos que antes da criação do Universo, o espaço, o tempo, a matéria… não existiam. Primeiro de tudo, “lá onde não há nada do Universo que conhecemos”, a Causa Primeira não está sujeita à matéria, ao espaço-tempo ou a qualquer outra coisa. Não resulta de nada a não ser Ela-Mesma, já que não há mada mais do que Ela Mesma, não tem outra Causa que não seja Ela-Mesma, Ela existe por Si Mesma, Subsiste por Si Mesma, basta-se a Si Mesma. Este Princípio Primeiro É o Último-Absoluto-Realidade, Deus Omnipotente, o Omnisciente, o Eterno, O que não tem início nem fim.
Todos os Profetas e Enviados de Deus fizeram milagres de que os seus povos foram testemunhas. Moisés separou o mar com a sua vara, o seu povo testemunhou e foi Enviado para ele. Jesus curou os leprosos e os cegos, o seu povo foi testemunha e ele foi Enviado para ele. Mas nós, nós não vimos esses prodígios, e não temos, portanto, nenhuma prova formal. O milagre de Mohammad é o Alcorão, foi manifestado ontem, é-o ainda mais hoje e sê-lo-á ainda mais amanhã. Todas as religiões apresentam os seus textos sagrados como verdadeiros e, portanto, milagrosos. Mas nenhum livro sagrado da terra declara ser ele próprio um milagre, a não ser o Alcorão:
« Dize-lhes: Mesmo que os humanos e os génios[25] (al-jinn, الجن) se tivessem reunido para produzir coisa similar a este Alcorão, jamais teriam feito algo semelhante, ainda que se ajudassem mutuamente 88 Temos exposto neste Alcorão toda a sorte de exemplos para os humanos, porém, a maioria dos humanos o nega 89 »[26]; « Se tivéssemos feito descer este Alcorão sobre uma montanha, tê-la-iam visto humilhar-se e fender-se, por temor a Deus, Tais exemplos propomos aos humanos, para que raciocinem 21 Ele é Deus; não há mais divindade além d’Ele, conhecedor do cognoscível e do incognoscível. Ele é o Clemente, o Misericordiosíssimo 22 Ele é Deus; não há mais divindade além d’Ele, Soberano, Augusto, Pacífico, Salvador, Zeloso, Poderoso, Compulsor, Supremo! Glorificado seja Deus, de tudo quanto (Lhe) associam! 23 Ele é Deus, Criador, Omnifeitor, Formador. Seus são os mais sublimes atributos. Tudo quanto existe nos céus e na terra glorifica-O, porque é o Poderoso, o Prudentíssimo 24 »[27]
O Islão é a última religião revelada, está destinada ao conjunto da humanidade, ontem, hoje e amanhã. Esta religião é adotada a partir de um testemunho consciente em duas partes: testemunho que não há deus senão o Deus, Único, sem associado, e testemunho que Mohammad é o Seu Servo e o Seu Enviado.
Quando entramos numa casa, distinguimos as paredes construídas pelo pedreiro, as portas e janelas feitas pelo carpinteiro, ou os fios elétricos montados pelo eletricista, os canos montados pelo canalizador. O Universo, esse, mostra-nos a sua unicidade absoluta, à escala quântica e à escala atómica, as leis sobre a energia, a matéria, a partícula, o átomo, a molécula, a célula, o planeta, a estrela, a galáxia… O Universo é um conjunto coerente e harmonioso, produto de um Único Princípio Criador e Organizador. Testemunha de que não há outro deus senão o Deus, Único, sem associado. E testemunha também de que Mohammad é o Enviado de Deus.
Na verdade, vimos que o Universo inteiro, tudo o que ele contém e tudo o que o constitui, pequeno e grande, é muçulmano submetido-pacificado a Deus pelas suas leis. A ciência moderna começou, portanto, com: “não há nenhum deus”, em seguida afirmou e completou a primeira parte do testemunho: “não há nenhum deus além do Deus, Único, sem associado”. Finalmente, mostrou que a segunda parte do testemunho, ou seja, que tudo o que está nos céus e na terra é muçulmano, submetido-pacificado a Deus.
« Deus dá testemunho de que não há mais divindade além d’Ele; os anjos e os sábios O confirmam Justiceiro; não há mais divindades além d’Ele, o Poderoso, o Prudentíssimo.” 18 “Para Deus a religião é o Islão. E os adeptos do Livro só discordaram por inveja, depois que a verdade lhes foi revelada. Porém, quem nega os versículos de Deus, saiba que Deus é Destro em ajustar contas 19 »[28]; « Anseiam, acaso, por outra religião, que não a de Deus? Todas as coisas que há nos céus e na terra, quer queiram, quer não, estão-Lhe submetidas, e a Ele retornarão 83 Dize: “Cremos em Deus, no que nos foi revelado, no que foi revelado a Abraão, a Ismael, a Isaac, a Jacó e às tribos, e no que, de seu Senhor, foi concedido a Moisés, a Jesus e aos profetas; não fazemos distinção alguma entre eles, porque somos, para Ele, muçulmanos” 84 E quem quer que almeje (impingir) outra religião, que não seja o Islão, (aquela) jamais será aceite e, no outro mundo, essa pessoa contar-se-á entre os desventurados 85 »[29]; « A quem Deus quer iluminar, dilata-lhe o peito para o Islão; a quem quer desviar (por tal merecer), oprime-lhe o peito, como aquele que se eleva na atmosfera. Assim, Deus cobre de abominação aqueles que se negam a crer 125 »[30]
Esta exposição representa apenas uma gota de água de um vasto oceano de provas da existência de Deus. Qualquer um pode verificá-las e uma vida inteira não bastaria para identificar essas provas inúmeras e colossais. Hoje, a existência de Deus já não é um enigma, uma dedução, uma intuição e muito menos ainda uma crença cega. A Fé nasce do conhecimento objetivo dos factos resultantes da realidade do nosso mundo. É pacífica, serena e inteira e não está sujeita aos sobressaltos de humor e aos eventos circunstanciais. Não causa a paixão, o fanatismo, o ódio, a revolta e a violência. Ela é paz que prega A Paz.
[1] Capítulo 41, versículos 52-54. [2] Cujo espectro eletromagnético depende unicamente da sua temperatura. [3] Radiação eletromagnética. [4] Capítulo 21, versículo 30. [5] Capítulo 51, versículo 47. [6] Capítulo 41, versículo 11. [7] Capítulo 36, versículo 40. [8] Entre os mais conhecidos, Stephen Hawking. [9] Mesmo à escala quântica, podem ser observadas simetrias. Assim, as cadeias de átomos comportam-se como uma corda de viola à escala nanométrica; resultam daí uma série de notas que ecoam. A observação das duas primeiras notas prova uma perfeita relação entre elas, o rácio das suas frequências é igual a 1,618. Cf. Ian Affleck, Science, janeiro 2010, Nature, março 2010. [10] Trinh Xuan Thuan. [11] Capítulo 18, versículo 49. [12] Capítulo 36, versículo 12. [13] Capítulo 72, versículo 28. [14] Capítulo 78, versículo 29. [15] Capítulo 19, versículo 94. [16] Capítulo 55, versículo 5. [17] Capítulo 22, versículo 18. [18] Capítulo 6, versículo 59. [19] Capítulo 2, versículos 163-164. [20] Capítulo 35, versículos 27-28. [21] Capítulo 22, versículos 73-74. [22] Cfr. os trabalhos de Stephen C. Meyer, Francis Crick, Stanley Miller, Leslie Orgel. [23] Capítulo 96, versículos 1-3. [24] Capítulo 23, versículos 12-16. [25] A relação léxico-semântica é inegável, em ambas as línguas, relativamente às seguintes palavras: jahannam (جهنم) / gená (abismo, inferno, tormento); al-jannah ([o Paraíso] الجنة) / a génese (nascimento, formação, geração); al-jân ([o djin] الجان) / o gene (raça, género, espécie); ajinnah ([embriões] أجنة) / genótipos (patrimónios genéticos); al-jinnah (الجنة) / a transgénese (inserção de genes); majnun ([possuído] مجنون) / transgénico (geneticamente modificado). Todos têm em comum serem geralmente dissimulados. [26] Capítulo 17, versículos 88-89. [27] Capítulo 59, versículos 21-24. [28] Capítulo 3, versículos 18-19. [29] Capítulo 3, versículos 83-85. [30] Capítulo 6, versículo 125.